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Interpol – El Pintor

Já passou mais de uma década desde que os Interpol nos agraciaram com a sua genial estreia Turn On The Bright Lights, disco marcante no arranque do Post-Punk Revival que assinalou o início do século XXI e que foi seguido pelo não menos brilhante Antics e por todo um seguimento de culto.

Numa altura em que as bandas que marcaram o movimento estão ou a mudar de estilo (caso de uns certos “macacos do árctico”) ou definham sem o fulgor de outrora (caso dos compatriotas Strokes ou dos europeus Kaiser Chiefs), sendo que apenas os The National aumentaram a popularidade (e de que maneira!), os Interpol também pareciam querer tornar-se apenas numa nota de rodapé da música rock, ainda para mais depois da saída do baixista e principal compositor Carlos Dengler, que deu origem ao cd mais denso da banda, o mal-amado homónimo e a um período prolongado de hiato.
O mais interessante é que esta decisão pode ter sido das melhores para o grupo americano, que regressa em formato de power trio com Paul Banks, vocalista e guitarrista, a assumir também as funções nas 4 cordas e, se dificilmente os Interpol terão a relevância e a frescura de outrora, o que é certo é que conseguiram contrariar a tendência decadente em que se encontravam e em que o seu género está a mergulhar.
El Pintor é o título enigmático do quinto álbum da banda e, se aponta para o período de hiato da banda (pintura é um dos passatempos predilectos de Banks), também não se coibe de simbolizar a renovação da banda (é um anagrama de Interpol), apropriado para um cd que é visto como um regresso às origens, mas com uma maturidade diferente.
Depois do registo anterior, é refrescante ver um cd dos Interpol mais liderado por guitarras e com uma abundância de riffs deliciosos impressionante, como se pode ver de imediato pelo single de avanço, “All the Rage Back Home”, ou pela gingona “Same Town, New Story”, acompanhado a preceito por sintetizadores atmosféricos.
A banda americana sempre foi sinónimo de elegância, o que mais uma vez se verifica, transbordando estilo através dos falsetes frequentes de Banks (a contrastar com a sua poderosa voz habitual) e combinando na perfeição com o negrume entre os Joy Division e os Depeche Mode que sempre transpareceu neste grupo, seja em momentos mais dançáveis como na sublime “My Desire” ou em temas contemplativos como a sentimental “Tidal Wave”.
Existem alguns tiros ao lado, como a banal “Anywhere” e o cd merecia um melhor encerramento do que a muito morna “Twice as Hard”, mas em geral o trio apresenta-se em grande forma e o baixo mostra-se mais do que bem entregue a Banks (veja-se o riff que abre “Everything Is Wrong”, que transpira Interpol clássicos).
Depois de um período conturbado e de um hiato prolongado, a banda não esconde a sua maturidade e faz dela uma arma, apresentando um conjunto de canções agressivas à sua maneira, mas sempre sensuais, elegantes e sobretudo emotivas, traduzindo-se naquele que é o melhor cd de Interpol desde Antics, combinando o seu som clássico com uma nova força e frescura, resultado do período de afastamento dos membros.