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James [Estação de São Bento, Porto]

Aquele que estava destinado a ser um pequeno evento promocional, visando adocicar o palato do público para a passagem dos James por Guimarães e Lisboa, acabou por ser muito mais do que isso. O plano inicial de revisitar três ou quatro músicas, da extensa discografia, numa das mais emblemáticas estações de comboios do mundo, transformou-se num concerto digno desse nome com direito a incontáveis singalongs, interpretações no topo do sistema de som e incursões de crowdsurfing por parte de um Tim Booth sempre empático e verdadeiramente entusiasmado pela hospitalidade das gentes do Porto que, de novo, provaram ser tudo aquilo que um artista deseja como legião de fãs e público para um concerto. Na verdade, foi uma plateia heterogénea que acolheu os britânicos em São Bento, se por um lado havia muitos fãs da banda, por outro estava ali a alma portuense composta por simples transeuntes, clientes diários da CP (que provavelmente esqueceram o comboio para casa e ficaram a assistir) e até turistas apanhados de surpresa por um concerto não tão surpresa.

A Estação de São Bento, no centro da cidade do Porto, data do século XIX e foi delineada pelo arquitecto portuense José Marques da Silva, sendo internacionalmente conhecida pelo seu imponente átrio recoberto a azulejos. Marques da Silva não projectou aquele espaço a pensar em concertos Rock, logo a acústica nunca seria a ideal para um evento impulsionado por mil vozes e guitarras eléctricas delicodoces e eloquentes, mas ninguém se importou muito com os aspectos técnicos, nem com a ausência do baterista David Baynton-Power e do trompetista Andy Diagram, porque a atmosfera foi verdadeiramente arrebatadora.

Antes da hora marcada, já uma multidão se acotovelava no átrio da estação e nas imediações do edifício, cuja lotação máxima seria claramente insuficiente para tantos e tão fervorosos fãs. A set-list rabiscada por Saul Davies contemplava “Out To Get You“, “Frozen Britain”, “Laid” e “Moving On”. Mas a hoste não desarmou e pediu mais e mais e teve aquilo que queria, obrigando a banda a discutir que temas (não ensaiados para a ocasião) ainda tinham na mang. Assim houve encore com “Interrogation” e”Getting Away With It (All Messed Up).” (momento mais empático e extático do concerto com Booth a surfar através do átrio da estação). No entanto, milhares de vozes não queriam calar-se e os músicos tiveram mesmo que rematar o concerto, porque no dia seguinte a banda tinha que “apanhar o comboio” para Guimarães, onde atua no Multiusos e depois seguir viagem para Lisboa, finalizando a passagem por Portugal na Meo Arena.

Este pode não ter sido o maior concerto da carreira dos James, mas duvido que alguma vez tenham exibido um backdrop tão belo como aquele desenhado pelos azulejos do pintor Jorge Colaço e não é, certamente, todos os dias que uma banda faz ecoar a sua música através de paredes que contam quase mil anos de história!


Texto: Rui Carneiro | Fotografia: Diana Rui Carapuço

Agradecimentos: PEV Entertainment