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Jess and The Ancient Ones – Jess and The Ancient Ones

As paisagens mágicas e invernais da Finlândia continuam a ser o húmus perfeito para o desabrochar de mandrágoras musicais como Jess and The Ancient Ones (JATAO). De facto, a inspiração lírica para a música da banda inscreve-se no manancial mitológico, lendário e mágico da cultura nórdica, logo uma análise simbólica encontraria provavelmente paralelismos e nexos semânticos entre as letras da banda e o misticismo de epopeias poéticas como o Kalevala.

Atualmente assiste-se a uma crescente proliferação de bandas que se inscrevem no âmbito do Occult Rock/Metal, mas estes finlandeses conseguem, logo à partida, criar um espaço próprio à margem dos cânones de qualquer género. No entanto, há aqui reminiscências de Black Sabbath, Iron Maiden, Mercyful Fate e das sonoridades prog e psicadélicas das décadas de 60/70.

Para dar corpo a esta mundividência musical, a banda conta com os préstimos dos seus três guitarristas, dos omnipresentes teclados de Abraham e de uma secção rítmica que conta com Fast Jake no baixo e Yussuf na bateria. Mas a “alma mater” desta formação é a demiúrgica e hermética vocalista, Jesse, uma sílfide obscura que é um portento de expressividade rock, cujas valências interpretativas assentam na beleza sublime do timbre peculiar da sua voz.

No primeiro tema, “A prayer of Death and Fire”, com os guitarristas em alta rotação nota-se que a voz de Jesse é quase ofuscada pela intensidade vibrante dos instrumentos, no entanto, as vocalizações lancinantes, especialmente ao nível do refrão, enriquecem a matriz melódica da canção e conferem-lhe uma dimensão muito hard rock.

“Twilight Witchcraft” está profundamente enraizada na matriz da banda, visto que é ainda mais nefelibata, soturna, hermética e saturniana. Neste segundo tema, Jesse começa progressivamente a ganhar preponderância na orgânica musical.

A elegia épica “Sulfur Giants” é o primeiro momento grandíloquo do álbum. Bruscamente há uma transição do registo inicial – atmosférico e etéreo – para uma toada psicadélica pautada por uma guitarra ritmo obsidiante, linhas de baixo obsessivas e voluptuosas e solos vertiginosos dos guitarristas. Mas, prolongando-se por mais de doze minutos, há ainda tempo para nova desaceleração e a sonoridade volta a tornar-se mais avant-garde e experimental. Neste momento, Abraham demonstra virtuosismo nos teclados. Depois, enquanto a percussão passa do trote para um galope marcial, o tema desenvolve-se em crescendo e Jesse projeta a voz em toda a sua amplitude.

À medida que avançamos, notamos que a banda manifesta uma predileção nítida pela complexificação rítmica e melódica dos temas. Com efeito, “Ghost Riders” apresenta algumas similitudes com o tema anterior, particularmente ao nível da toada galopante e em conformidade com a imagem suscitada pelo título.
“13th Breath of the Zodiac” é um tema mais linear e rock, pautado por uma conjugação dos instrumentos e da voz. Sendo um tema mais direto, talvez por isso tenha sido inicialmente lançado como single, visto que apresenta a arquitetura orgânica necessária para cativar os amantes do género: uma profusão instrumental de guitarras digladiando-se, um baixo pulsante e oscilações tímbricas evidentes.

O momento mais surpreendente do álbum é, sem dúvida, “The Devil (in G-minor)”. Inesperadamente, encontramos uma atmosfera muito “arty” e a banda faz uma incursão pelos territórios do jazz. Jesse e os restantes elementos da banda demonstram um ecletismo insigne, facto que abre um imenso leque de possibilidades para aquilo que o futuro nos reserva em termos da evolução deste projeto.

Por último, “Come Crimson Death” brinda-nos com toda a qualidade lírica recorrente em JATAO. Na verdade, o tema é quase uma síntese dos motivos recorrentes neste universo musical: variações e circunvalações rítmicas, solos meteóricos e coruscantes, devaneios melódicos e teclados lúbricos. A ponta final da canção é particularmente entusiástica, quase procurando de forma insidiosa inculcar a noção de que o tema se vai prolongar um pouco mais, mas, de súbito, a canção termina.

O álbum de estreia de Jesse And The Ancient Ones é uma filigrana delicada que conquistará todos aqueles que apreciam sonoridades ecléticas. A banda cria música sob o signo da diversidade e se há momentos em que a música lembra bandas icónicas do heavy e do hard rock, não é menos verdade que estes músicos conseguem integrar a dose certa de experimentalismo para inscreverem este disco como umas das estreias mais auspiciosas de 2012.

Análise de Rui Carneiro