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Karuniiru – Cyberpunk

Antecipando a data do lançamento oficial, prevista para o dia 14 de setembro, os Karuniiru concederam-nos o privilégio de escutarmos e escalpelizarmos o álbum de estreia Cyberpunk. De notar que, mais que uma banda, Karuniiru é um “projeto de artes” oficiado e liderado por Domino Pawo. De fato, temos que recuar ao ano da graça de 2005 para assistirmos à eclosão deste projeto, fortemente influenciado pela JMusic, quando ainda dava pelo nome de Carnille.

Em 2009, Carnille transfigurava-se em Karuniiru (“tradução possível do japonês para Carnille, que significa a força dos elfos, a perseverança.”) e avançava a talho de foice pelos palcos nacionais com doses massivas da sua agressiva mistura de metal-punk-noise-funk-alternative-nu-thrash-progressive-industrial.

Dois EP e dois singles depois, esta entidade surge, em 2013, reconfigurada com a inclusão do potencial criativo e performativo de Charles Sangnoir (La Chanson Noire, Tertúlia dos Assassinos) e Melkor (The Firstborn, Neoplasmah e Martelo Negro). Assim sendo, ao exosqueleto primordial agregam-se novas roupagens e os ritmos electrónicos fundem-se com a irreverência do punk, as atmosferas saturnianas do gótico e o poder corrosivo do metal.

Como Cerberus, o tricéfalo guardião da entrada do Hades, despedaçando os mortais que se aventuram por aquelas inóspitas paragens, estes três demiurgos, reunidos sob o pálio de Karuniiru, desferem um vicioso e implacável ataque ao nosso córtex auditivo, despoletando vagas de sinapses coruscantes à medida que os decibéis nos molestam os tímpanos. O ataque é sádico, vanguardista e voraz, mas ouvimos cada uma destas músicas com um comprazimento masoquista e lúbrico.

A natureza híbrida é a pedra de toque, como o próprio nome sugere, de “Cyberpunk” e cada música desenvolve-se com uma complexidade estrutural que explora as virtudes polifónicas da fusão de diferentes estilos e ambiências sonoras. De facto, cada tema é uma espécie de quimera construída a partir de elementos que, originários de pólos opostos do espectro musical, aqui se encontram em comunhão.

“Cyberpunk” abre numa toada algo sorumbática com “Rosa Cruz”, sendo que os riffs de guitarra e as variações de registo ao nível da voz introduzem cambiantes na matriz eletrónica de fundo. No entanto, também encontraremos temas mais diretos, eletrizantes e eufóricos como “Divina Geometria”, “Holly Hooker” ou a picaresca, pitoresca e jocosa “Uau au au”.

No entanto, os melhores momentos do álbum são aqueles em que a natureza avant-garde e o hermetismo quimérico ganham maior protagonismo. “Jinkininki” é um bom exemplo, na medida em que evolui num crescendo de intensidade construído em torno de um ritmo insinuante e insidioso de guitarra, visceralmente rasgado sobre uma reiteração de ritmos electrónicos, sendo que o tema atinge o clímax durante um refrão particularmente inebriante.

A alucinogénica “Cocaine Song” traz uma vibração mais Metal, nomeadamente ao nível das vocalizações, no entanto, é um tema mais linear em termos melódicos e rítmicos.

“Coração cratera” irrompe pulsante e aposta novamente na língua de Camões, sendo que, na nossa opinião, as músicas dos Karuniiru ganham outro fulgor lírico quando cantadas em português, tornando-se mais orgânicas e expressivas.

Em “Jorra” repete-se a mesma fórmula vencedora, visto que as palavras jorram na “lingua mater” imbuídas de uma lírica dionisíaca, escatológica e profana.

Ao cair do pano, ouvimos “Grito”; palavras de ordem vociferadas em tom panfletário, ritmos sincopados e enérgicos. De facto, a banda parece apostada em quebrar barreiras entre os géneros, puxando pelos galões iconoclastas e rematando esta “opus” a “chave de ouro”, com uma música que ameaça deixar os fãs ao rubro durante atuações ao vivo.

“Cyberpunk” chega brevemente aos escaparates e ao lema de Verlaine – “De la musique avant toute chose”; – os Karuniiru respondem – “Art above everything”!

Análise de Rui Carneiro
Agradecimentos: Karuniiru