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La Chanson Noire – Cabaret Portugal

Depois da estreia com “Música Para os Mortos”, chegou recentemente aos escaparates nacionais, “Cabaret Portugal”, a nova opus negra de Carlos Monteiro (aka Charles Sangnoir). Extirpando qualquer lirismo saudosista, encontramos neste trabalho a interpretação brejeira de uma portugalidade que se arrasta pelas ruas da amargura com o ar ufano, narcísico e libidinosamente provocador das putas tristes de Garcia Márquez.

Entre os cicerones que acompanham esse deambular venéreo e saturniano, encontramos epígonos da cultura nacional como Adolfo Luxúria Canibal, Fernando Ribeiro, Pedro Laginha e Nuno Markl, entre cerca de 30 figuras incontornáveis das artes lusas, que não deixaram de dar o seu contributo para a construção polifónica deste “Cântico Negro”, a lembrar José Régio.

Pedro Laginha dá voz à poesia de “Uma Cruz à Porta”, uma soturna melopeia de imagética báquica acompanhada ao piano. Expressão de um lirismo de pendor dionisíaco inserido num ambiente de bacanália bucólica, que culmina com a eloquente elocução: “Despojemo-nos de avisos e roupagens e afetos e corramos nus pela floresta a gritar a morte do amor até que a dor nos funda os ossos”.

“Correr cansado” traz consigo a energia viril das guitarras irmanadas com cordas clássicas e as notas vibrantes do piano de Sangnoir.

A homofágica “Valsa Suína” arrebata-nos com a sua intensidade operática. A letra é mordaz, polémica e panfletária, criando uma alegoria báquica.

“Piscis” é interpretada por Sangnoir, em inglês, ao piano. A aridez instrumental realça de forma contundente a crispação melódica da voz.

“Sonho de uma noite de varão” é um hino ao excesso e aos prazeres dos sentidos, um devaneio Shakespeariano invertido e lúbrico.

O tema homónimo “La Chanson Noire”, em francês, convoca atmosferas eletrónicas, instalando-nos num ambiente com reminiscências de cabaret e prostíbulo gótico – com densas nuvens de fumo evolando-se pelos espaços ínvios entre o perfume alucinogénico das notas e o sexo violáceo das viragos.

“Cornucópia” volta a conjugar lirismo e intensidade, surgindo intensas diatribes entre voz e piano.

Da escrita de Carlos Matos nasce “Uma Cena de Amor”. O autor oferece-nos o substrato lírico para um dos momentos mais orgiásticos de “Cabaret Portugal”. Pleno de fetishismo e referências bondage, o sexo é aqui retratado na sua natureza carnal, sem vestígios de sublimação ou artifícios poéticos, como só o encontramos na novíssima poesia portuguesa.

O novo single, “Cabaret Portugal”, faz desmoronar as velhas ruínas do Quinto Império e rasga as cortinas do nevoeiro sebastianista, satirizando a natureza de uma portugalidade cada vez mais ensimesmada e inapta: “terra de navegadores que não sabem nadar” De fato, Sangnoir referiu que estamos a viver “uma nova época vitoriana, cheia de coisas interessantes, novidades estranhas, mas também de repressão e puritanismo.” E este tema parece legitimar uma interpretação à luz do “Grito do Ipiranga, para que não nos esqueçamos de fazer o que nos dá na real gana, independentemente do que o nosso vizinho de Facebook vá achar.”

Os anéis de saturno voltam a lançar a sua infuência durante “Ballad of the Fangs”. Ritmos downtempo e vocalizações sombrias e arrastadas, em inglês, compõem este requiem vampírico.

“Cabaret Portugal” caminha para o final com o dueto de ressonâncias folk “Meine kleinen Toten Herzen”; a beleza sinistra e gótica da lúgubre elegia “Undead Lovers” e Pedro Laginha regressa para fechar com chave d’oiro esta orgia cíclica, ciciando aos nossos ouvidos os prazeres carnais de Astarte em “Segredos de Alcova”.

Sangnoir com Cabaret Portugal pretendia criar algo “verdadeiramente esquizofrénico”, a partir do conceito surrealista francês – “cadavre exquis” – convocando diversos colaboradores que, desconhecendo os restantes, tinham apenas como fio de Ariadne – um título! De facto, escatologicamente lúcido, o autor tinha a noção que isto “podia ter ficado uma merda.” No entanto, o resultado foi bem diferente e o álbum ficou uma putaria do caralho.

Texto por Rui Carneiro