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La Chanson Noire – Macumba Stereo

Algures entre a cauda e a cabeça, assim corre a cortina sobre este Ouroboros musical. Abocanhando-se autofagicamente, Charles Sangnoir, o demiurgo compositor, despede-se assim do seu “one man show”, La Chanson Noire, com, Macumba Stereo, opus derradeira de uma trilogia iniciada com Música para os Mortos e que teve, no aclamado Cabaret Portugal, indómita expressão e corolário de uma musicalidade verdadeiramente ímpar e “sui generis” aquém e além da amurada de pedra desta jangada à deriva num oceano de escolhos.

Este terceiro capítulo distingue-se, contudo, dos lançamentos anteriores porque revisita temas já disseminados pela discografia de La Chanson Noire. No entanto, como nota Sangnoir, Macumba Stereo é mais que uma “compilação”, na medida em que sintetiza a essência daquilo que é La Chanson Noire, ou seja, um “rock n’ roll sem guitarras” destilado ao longo de anos de subversão alucinada e insana.

A jusante do preâmbulo tétrico ao som do cânone mefistofélico de “Construindo Monstros”, pantagruelicamente oficiado por Jorge “Reverendo” Bruto (Bruto And The Cannibals), surge a historiográfica “Fado Mau”, convocando o amigo David Soares à boca de cena para exorcizar fantasmas do passado que ainda insistem em assombrar, insidiosamente, as arcadas do Terreiro do Paço, castigando os grilhões de trevas que arrastam as nuvens plúmbeas, obscurecendo as margens outrora iluminadas pela nudez das Tágides.

Na verdade, em Macumba Stereo são as canções com uma lírica mais iconoclasta como “Food For The Worms”, “Fuck Me”, “Pura Merda” e “Água Benta” que nos instalam no âmbito de uma desconstrução do real pela entronização do escatológico ao plano do sublime. Na mesma óptica, “Natal dos Hospitais” é um dos momentos mais desconcertantes e vanguardistas, visto que foca e desconstrói um lugar-comum da portugalidade contemporânea quase tão recorrente como aquele “Fado, Fátima e Futebol”.

Entretanto, há ainda tempo para destilar o single, de 2009, “Valsa dos Escombros” que serviu, na época, como “prenda de natal” de La Chanson Noire e que dispensa apresentações na sua volatilidade dançante.

Escalpelizado, Macumba Stereo é um álbum de contrastes, visto que paralelamente a temas de vocação mais polémica e corrosiva, encontramos momentos herméticos como o single e único tema composto expressamente para este álbum, “Horrorscope”, uma sublime e dilacerante balada saturniana centrada no desgosto amoroso. Música perspetivada à luz de uma miríade de referências astrológicas cujo vídeo recorda o encontro entre Fernando Pessoa e Aleister Crowley, em Lisboa. Paralelamente, há ainda a sincrética “Bordel de Lúcifer”, uma ode burlesca, sensual e libertina que resume a essência musical de La Chanson Noire. Depois, amplificando a polifonia do álbum, surgem momentos mais roqueiros durante a cáustica “Fina Flor do Entulho”.

Já perto do fim, o cabaret carnavalesco e circense dá o mote para “Mister Jones”. Aqui chegados, há tempo para conhecer Joe Black, um cartoonesco ‘Real Life Disney villain’ e rei do cabaret noir, figura singular e convidado especial de um tema que congrega reminiscências de uma musicalidade que podia enquadrar-se numa produção de Emir Kusturica como “Gato Preto, Gato Branco”. No ocaso desta macumba musical, a desconcertantemente tétrica, lúgubre e sorumbática “Ode a Satã” faz correr o pano sobre este “Cântico Negro” de Sangnoir que, como o de Régio, parece em súmula dizer:

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
(…)
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Análise de Rui Carneiro