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Linda Martini – Sirumba

Já lá vão 11 anos desde que os Linda Martini nos brindaram com o seu EP homónimo de estreia, aproveitando a crista da onda do movimento Post-Rock onde foram (muito incorrectamente) inseridos no início da carreira apenas por privilegiarem os instrumentos à voz e pelos longos devaneios sonoros que nos trouxeram pérolas como “Lição de Voo Nº1” (embora já houvesse traços do formato-canção que viriam a privilegiar em “Amor Combate”, ainda hoje um dos seus maiores êxitos).

Mas os nativos da Linha de Sintra cedo nos desenganaram, com a sua estreia supersónica de longa-duração Olhos de Mongol há uma década, onde mostraram muito mais de Sonic YouthMars Volta do que de Explosions In The Sky ou Mogwai.

Depois disso, a banda revelou-se verdadeiramente camaleónica, dando asas às suas raízes do Hardcore Punk no magnífico Casa Ocupada e descobrindo a sua veia trovadora no já aprumado Turbo Lento, afinando ainda mais essa faceta no novo Sirumba.

É importante, antes de mais, não confundir o primor que marca o novo disco dos Linda Martini com amolecimento; embora seja verdade que os músicos já não berram aos sete ventos (embora alguns coros permaneçam aqui e ali, como na melancólica “Preguiça”) nem nos afoguem em ruído e paredes sonoras de efeitos pedalados, apenas substituíram a sua urgência de outra vida por uma tensão sempre presente, muito graças à percussão frenética de Hélio Morais e de guitarras dedilhadas por André Henriques e (em grande forma) Pedro Geraldes, numa contenção claustrofóbica que sabe contar os segundos até resultar em breves explosões catárticas, num claro exemplo de ‘menos é mais’, como se nota no longo mas seguro crescendo da fantástica “Farda Limpa”, cujo clímax até tem direito a secção de metais (tal como no viciante single “Unicórnio de Santa Engrácia”, mas aqui mais em destaque).

Este novo som límpido permite uma maior exposição aos detalhes quase infinitos das músicas de Sirumba que recompensam cada nova audição com um pormenor até aí desconhecido, além de abrir mais espaço para a voz de André Henriques, como já se tinha tendenciado em Turbo Lento, desfilando as suas letras complexas sobre temas pessoais como na pseudo-balada “Bom Partido” (“Fomos felizes na medida/Em que se pode ser feliz/Fiz dele toda a minha vida/Mas nunca foi isto que quis”) cujo riff memorável e tristeza transparente a tornam no melhor momento do CD, incluindo momentos que, mesmo que dificilmente ombreiem com o hino que se tornou “Cem Metros Sereia”, merecem ser entoados pelos fãs a plenos pulmões ao vivo, gerando aqueles momentos da intensidade que se sabe, com “Não quero ser Doutor” da excelente faixa-título à cabeça.

Sirumba não foi um título escolhido ao acaso, remetendo o próprio álbum para a nostalgia sonora com que os músicos cresceram, puxando influências à música portuguesa dos anos 80 de um José Mário Branco ou João Tordo e fundindo-as com a Bossanova que assumem como influência em viagem, puxando o imaginário Punk mais para trás (mas nunca ausente) e resultando em temas de carga política como “Putos Bons” ou a fantástica “O Dia Em Que A Música Morreu”, que encerra o disco em grande com um dos melhores riffs da carreira da banda e instrumentos pouco convencionais (há assobios e sacos do lixo à mistura) no fecho da faixa.

Ainda há, no entanto, músicas para os mais saudosistas dos Linda Martini de outros tempos, como a maioritariamente instrumental “Dentes de Mentiroso” que é uma reflexão sobre privacidade (que André Henriques já assumiu como tendo ‘farpas’ dirigidas às redes sociais) que nos soa tão bem como há 10 anos, embora “Comer Por Dois” com as suas melodias intrincadas seja o ponto fraco de Sirumba, soando a algo já testado em Turbo Lento e de forma melhor.

Assim sendo, sem renegarem o som que os caracteriza, os Linda Martini assinam no seu novo disco uma abordagem mais limpa e complexa que só os beneficia, resultando no seu som mais maduro e acessível até agora, repleto de canções e confirmando-os como a melhor banda portuguesa da actualidade (e uma das melhores de sempre), lançando o melhor álbum da sua carreira.