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Mahafsoun [Março 2013]

Mahafsoun, traduzida à letra significa “Feitiço da Lua”, este foi o nome escolhido pela nossa entrevistada para nomear a sua “persona” artística. Nascida em Teerão, Mahafsoun, faz questão de recordar que deu os primeiros passos naquela que, foi, em tempos, a antiga Pérsia. Originária portanto da “morada de Tir”, ela parece ter herdado o encanto e o carácter enigmático de Hermes, já que a sua dança é um misto de sedução e poder encantatório.
A dança do ventre e o metal são duas paixões que um dia resolveu unir por um vínculo inabalável, e desde então não mais deixou de nos surpreender com as suas interpretações iconoclastas de alguns temas incontornáveis do metal.
Nos seus homónimos lusos, Moonspell, encontrou uma das mais poderosas fontes de inspiração, sendo que recentemente deslumbrou o Rickshaw Theatre, em Vancouver, durante a “Voices from the Dark Tour” quando subiu ao palco para uma dança com lobos ao som de “Vampiria”.
Mahafsoun é hoje a nossa convidada nas páginas da Rock n’ Heavy.

Antes de mais, em nome da Rock n’ Heavy quero agradecer-te, Mahafsoun, por esta entrevista muito especial e atrevo-me a manifestar toda a minha admiração pelo teu talento.
– Muito obrigada! É um prazer fazer esta entrevista.

De que forma é que a dança do ventre entrou na tua vida? Será que, porventura, foste inspirada por alguns artistas em particular?
Eu estava (e ainda estou) emocionalmente ligada e inspirada pela espiritualidade do Antigo Egipto, já desde a minha infância. Em meados de 2007, apaixonei-me pela dança do ventre, quando percebi o quão espiritual ela pode ser. Nessa altura também me apaixonei pelo metal e naturalmente decidir fundir essas duas paixões.

A dança do ventre é uma ancestral forma de arte, profundamente ligada à música tradicional, mas, de alguma forma, a tua dança levou-te numa viagem “ao outro lado do espelho”, quando a combinaste com o metal. Como é que isso aconteceu?
Comecei a dançar tradicionalmente como acontece com a maioria das pessoas, e no início quis dominar os movimentos tradicionais, até porque considero que esta é a melhor abordagem à fusão na dança do ventre. É importante conhecer e estar confortável com o estilo tradicional antes de resolver fundi-lo com movimentos/música oriundos de outro género. Sinto-me mais inspirada pelo metal do que pela música tradicional do Médio-Oriente, apesar de ouvir ambos e de, na verdade, ter crescido a ouvir música tradicional persa. Simplesmente optei por adotar o estilo musical que considero mais inspirador.

Já sentiste algum tipo de crítica vinda da comunidade mais tradicionalista da dança do ventre?
Claro. Há sempre críticas. Especialmente num mundo dominado quase exclusivamente por mulheres… Elas criticam-se umas às outras diariamente, não seria uma surpresa que elas criticassem alguém que, sendo ela própria originária do Médio-Oriente, está a fomentar a sua arte e cultura e a misturar tudo isso com metal. Haha mas pronto faz tudo parte da experiência. Seria estranho se todos fossem unânimes e gostassem do que faço. Faria que aquilo que faço parecesse “normal”, quando acho que é “especial”.

Entre todos os estilos musicais existentes, o metal tem uma significativa conexão espiritual que pode levar a dança do ventre a um nível, se não mais alto, pelo menos diferente? Concordas com essa afirmação, e como descreves a magia que acontece quando se mistura dança e metal?
Não sei se posso dizer que o metal é a única música espiritual, e a única para a minha dança. Como já disse, cresci com música persa tradicional, música do Azerbaijão e música egípcia na minha casa. O poder espiritual contido em alguns destes antigos estilos de música é muito tocante. Contudo o metal tem poder e isso é algo que não sinto na música tradicional. A música tradicional pode ter emoções, espiritualidade, graça… mas falta-lhe quase sempre a energia.

Recentemente, no teu facebook, partilhaste o teu entusiasmo pelo facto de os Moonspell passarem por Vancouver durante esta digressão. Disseste, e cito: “Seria um prazer actuar com uma das minhas bandas favoritas”. E no caso desse desejo se tornar realidade? Tens algo especial em mente?
O desejo tornou-se realidade! E tu já sabes que sim, no entanto, elaboraste estas questões dias antes de eu confirmar a actuação com Moonspell. A experiência com os Moonspell foi tudo o que eu imaginava, e muito mais. Atinjo o clímax da minha inspiração quando tenho, não só a oportunidade de actuar com artistas fantásticos que me inspiram verdadeiramente, mas também com artistas que são pessoas extremamente afáveis, e que congregam energias muito positivas neles e no seu trabalho. Moonspell foi a minha primeira actuação em 2013, e a experiência inspirou-me de uma forma completamente inédita. Eu vejo isso como um sinal de que este ano será um bom ano.

Estiveste em palco com outras bandas de metal recentemente? Sei que um dos teus sonhos se tornou realidade quando dançaste com Epica. Consegues partilhar connosco as emoções e sentimentos mais intensos que tomam conta de ti, quando sobes ao palco com uma banda de metal? Planificas as tuas actuações ou há muita improvisação em palco?
Passo semanas a preparar-me para a noite da actuação, estou excitada, mas ainda não propriamente nervosa. Termino o fato, entro em contacto com as pessoas que também estão envolvidas no espectáculo (fotógrafos, equipa de filmagem), pois, sem eles não haveria forma de partilhar as memórias e a actuação, com pessoas de todo o mundo. O momento em que os nervos começam, julgo eu, é na noite anterior e nas horas que antecedem o primeiro encontro com a banda. Mesmo nesses momentos eu aparento estar muito calma. Há ainda aqueles 30 segundos, quando finalmente estou no palco, e a multidão se interroga acerca do que estou a fazer lá em cima, algo que é, admito, um pouco constrangedor, embora emocionante… Não tenho pressa, tenho tempo para lhes mostrar que estão errados e oferecer-lhes algo que possivelmente lhes agradará e que nunca mais esquecerão.
Todas as minhas actuações ao vivo são improvisadas. Tenho ideias acerca do estilo / emoções / movimentos que espero realizar, mas nunca elaboro coreografias. Gosto de ter total liberdade para mudar o que quiser no momento, porque nunca sabes o que vai acontecer e não tens noção da disposição ou dos movimentos dos músicos em palco. Treinei-me para improvisar, porque acredito que não só me dá mais flexibilidade, mas também porque mostra as minhas emoções e movimentos reais / verdadeiros naquele preciso momento. É mais real, a dança é mais natural, porque eu faço os movimentos que quero no momento exacto em que tenho vontade de os fazer. Para mim a improvisação na dança é como ler um poema de amor. É mais natural e real declamá-lo, enquanto estou a pensar nisso e a sentir as palavras naquele instante, do que passar horas sentado, escrevê-lo, para só depois o ler em voz alta. Quando improviso as pessoas podem observar as minhas verdadeiras emoções.

Nessa conformidade, o que seria o melhor que te poderia acontecer a seguir? Qual seria a banda que neste momento te deixaria verdadeiramente excitada, convidando-te a subir ao palco com eles, e por quê?
Adorava actuar com a maravilhosa banda ORPHANED LAND no futuro. Adoro a música e a mensagem oculta no seu interior. Aproximar todas as pessoas sem olhar às origens, raças, religiões, ou qualquer outra coisa que nos possa separar. Além disso, a minha experiência ao actuar com Ex Deo e Moonspell foi tão inspiradora e memorável, que eu adorava estar em palco com eles sempre que voltassem à cidade onde vivo

Tens um vídeo em que improvisas ao som de “Vampiria” dos Moonspell. Que te atraiu nesse tema em particular?
É uma das minhas músicas favoritas dos Moonspell. É uma canção muito dramática. Possibilitando uma actuação igualmente mais dramática.

Conheces outras bandas portuguesas? Já pensaste em improvisar ao som de outras bandas lusas? Imagino-te, por exemplo, a dançar ao som dos AVA INFERI.
Infelizmente ainda não me debrucei sobre outras bandas portuguesas. Além dos Moonspell, só improvisei ao som dos portugueses GODOG.

No que ao metal diz respeito, qual é a tua música favorita para dança do ventre? E, no futuro próximo, já pensaste em improvisar ao som de temas novos e gravá-los em vídeo?
Estou sempre a planear as minhas próximas sessões de estúdio, para que possa manter o meu YouTube activo e a minha motivação sempre crescente. Eu sinto-me algo vazia quando paro de “criar”. Tenho que estar sempre a fazer algo, a criar algo.
Para ser franca, não tenho uma canção favorita para dançar. No entanto, o meu vídeo mais recente, em que danço ao som de “Night Eternal”, dos Moonspell, deve ser o meu novo vídeo favorito.

Também estou ciente que estás a trabalhar num projecto que envolve aulas de dança do ventre de fusão com Gothic Metal, aí em Vancouver. Consideras que uma mistura avant-garde entre formas de arte tradicionais e modernas pode realmente inspirar as pessoas, e dar ao público uma visão diferente sobre o metal e a dança?
Acredito que sim. Já tenho algumas candidatas de diferentes estilos e origens que desejam frequentar as aulas. Infelizmente a maior parte das mulheres que desejam frequentar as minhas aulas não habitam nesta zona. Acredito que a abordagem que pretendo implementar nas minhas aulas, permitirá que as alunas possam aproveitar o que aprenderam e aplicá-lo a qualquer outro tipo de música ao som do qual queiram fazer dança do ventre. Eu não vou avançar imediatamente para uma explicação de como é que elas podem ouvir uma música de metal e dançar ao som dela. Vamos ter que começar pelos princípios básicos, os movimentos tradicionais, os passos, e deixá-las à vontade com estes antes de avançarmos para uma aprendizagem centrada no estilo de fusão. Eu quero que as aulas sejam benéficas e aprazíveis para todas as mulheres, e não apenas para aquelas que gostam de metal/gótico. Depois vou possivelmente tentar implementar programas e cursos, direccionados para mulheres que não estão tão interessadas na fusão e têm objectivos diferentes quanto ao que querem aprender.

Ainda és muito jovem, mas suas realizações profissionais e pessoais expandem-se ao longo de diferentes níveis do espectro artístico. E quanto ao provir, objetivos futuros?
Muito obrigado! Bem, no início deste ano, decidi empreender uma abordagem mais profissional e determinada quanto à minha paixão como artista. Já não apenas como uma dançarina, mas antes como uma “criadora”. Quando dei início ao projecto “Mahafsoun” publicamente, em 2010, não procurava uma abordagem profissional. Simplesmente criava, e tinha como objectivo fazê-lo da forma que parecesse o mais profissional possível. À medida que o tempo passou, lentamente comecei a levar tudo mais a sério, dedicando cada vez mais de mim própria a Mahafsoun. Este ano pretendo actuar com outras bandas que adoro, e começar a ensinar num estúdio. Acima de tudo, quero ser feliz enquanto faço tudo isto.

Por último, algumas palavras de encorajamento ou pensamentos mais especiais que possam inspirar alguém que queira seguir os teus passos?
Soa tão repetitivo e desprovido de originalidade, mas é a coisa mais honesta que posso dizer: Nunca desistam. Mantenham-se focados naquilo que interessa – na vossa paixão, naquilo que mais gostam de fazer. É fácil distraírem-se com coisas que não têm qualquer interesse.

Muito obrigado por esta entrevista, Mahafsoun, continua a dançar e a oferecer-nos a tua beleza sublime e as tuas actuações arrebatadoras ao som da sedução extrema do metal.
– Esta conversa foi um verdadeiro prazer. Muito obrigado por esta entrevista, e pelo teu apoio!