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Mandíbula – Sacrificial Metal of Death

Mandíbula escancarada num esgar cadavérico e vampiresco. Este é o frontispício para “Sacrificial Metal of Death”. O “artwork” é obra de A. Coelho, mas o que nos espera no interior corresponde a algo ainda mais aterrador, obscuro, orgânico, espectral e sorumbático.

Para quem não conhecer, Mandíbula é um projeto individual, assim, quando escutamos o álbum, penetramos no universo alegórico e crepuscular de uma só entidade demiúrgica. As referências, como refere o músico, são vastas e radicam principalmente em bandas como Celtic Frost/Hellhammer, Bathory; na onda Thrash germânica: Sodom, Kreator; e também na cena brasileira com Mutilator, Holocausto, Vulcano e, particularmente, Sarcófago. Cruzando esta base brutal com o Punk de Amebix e Discharge, ficamos com um projeto iconoclasta, na senda Proto Black Thrash Metal.

Inicialmente anunciado como “um marco nos muros pútridos da depravação para a destruição da humanidade”, devemos salientar que a atualidade deste álbum é indiscutível, até porque não corresponde a uma abordagem convencional, pelo que, quando colocamos o CD no leitor, é como se cruzássemos o Estige a bordo da barca de Caronte, numa viagem conceptual que não admite paragens.

“Intro” arreganha as fauces para a “toca do coelho”, mas o que nos espera do outro lado não é o palácio da rainha de copas, mas uma “wasteland” desoladora e lúgubre. Um cenário de “locus horrendus” onde pontificam os quatro cavaleiros do apocalipse: Peste, Guerra, Fome e Morte. “Intro” marca o início da hecatombe, ela é o princípio do fim. Rompe-se o primeiro dos sete selos e ficam escancarados os portões que guardam o limbo entre a vida e a morte. Avança o cavalo branco, símbolo do anticristo. Quebrado o segundo selo, surge o cavalo cor de sangue, ao som de “Cães da Guerra”, um hino marcial entoado por um arauto tétrico e sádico que vocifera: “Soltem os cães da guerra em delírios homicidas!” Em seguida, “Negros Cascos Sobre o Trono da Terra” ecoam viciosos e trepidantes, esmagando os ossos dos que tombaram pela guerra, enquanto se abrem os restantes selos do apocalipse, espalhando a devastação e o sofrimento. Um vale de lágrimas introduz “Flagelação”, um tema de maior fôlego e com motivos mais complexos, mas que insiste na mesma toada opressivamente contundente. A iconologia da Morte continua em “O Carrasco”, momento em que palavras de ordem são vociferadas através de ondas de distorção. Depois, melancolicamente, começam a derramar-se as torrentes hemorrágicas de “Rios de Sangue” e tudo soçobra numa aura sinistra, sepulcral e tétrica, esfumando-se na névoa diáfana deste interlúdio nihilista e shopenhauriano proporcionado pelos teclados de Morbius. Mandíbula volta em força com duas longas epifanias profanas: “Arauto da Dor” e “Coroa Negra dos Infernos”. No entanto, será também de salientar a presença da lírica da carne e do sexo, explorada de forma nua e crua durante o epílogo “Orgia no Necrotério”.

Para finalizar, recordamos que este álbum foi editado pela primeira vez, em 2010, noutros formatos, na Latrina do Chifrudo, Universal Tongue e Caverna Abismal Records, sendo que agora chega aos escaparates em versão CD via Ethereal Sound Works/ Caverna Abismal Records, proporcionando uma experiência renovada aos fãs de Mandíbula ou uma primeira experiência catártica àqueles que desconheciam este projeto.

Texto por Rui Carneiro