free website stats program

Medo – Matéria Negra

Fobos, o deus grego do Medo, seria filho de Ares e de Afrodite, e irmão de Deimos, o Terror. O Medo nasce assim da união inverosímil entre o Amor e a Guerra, é a súmula de dois mundos antagónicos, a síntese dos princípios masculino e feminino. Daí que a experiência do Medo seja paradoxal, dado que mesmo que apenas de forma subliminar todos nos sentimos atraídos por aquilo que mais receamos.

Atravessamos o Estige, depois de entregarmos o óbolo negro a Caronte, o barqueiro hediondo do Hades e sulcamos as águas estagnadas a caminho dos domínios tétricos do Medo e do Terror, consubstanciados nesta ópera das trevas que dá pelo nome de “Matéria Negra”.

Recém-chegados às encostas soturnas e infernais que rodeiam o lago negro do esquecimento, tem início esta liturgia das trevas oculta “Por trás da Porta de Ferro”. O intróito de “Matéria Negra” prepara o caminho ritualizado para a opus infernal celebrada pelos dois oficiantes que compõem os MEDO. Para lá da porta de ferro, aguarda “O Portador das Tormentas”, quando a rispidez das guitarras e a velocidade feroz da percussão embate de forma fulgurante, abrindo caminho para as vocalizações em tom declamatório e cerimonial. As palavras ferem com a brutalidade de punhais na língua mãe, acompanhadas por urros lancinantes. Note-se, a caminho do final da faixa, a forma como a guitarra desliza para o registo melódico e o baixo sublinha fugazmente a tensão efémera que rapidamente se desenvolve através do recrudescimento da distorção, quando a guitarra esvazia riffs em profusão até ao ponto em que a música se precipita no vazio. “You will never burn all witches” abre ao som de grilhões arrastando pelo chão, como se uma procissão negra caminhasse em direcção ao suplício na fogueira. Acompanhando o rumor arrastado das correntes, ouve-se um coro gregoriano e a imprecação demoníaca cede lugar à entrada da guitarra. Deslumbrante o contraste entre a vocalização gutural e a melodia dos teclados etéreos, combinando de forma exímia a brutalidade do black com uma componente melódica avant garde. Depois, as guitarras e os teclados expressivos retratam de forma magistral o canto de sereia dos hereges, enquanto a bateria rompe em vagas sincopadas. Por fim, a voz em registo limpo e o vaticínio herético: “At the end just ashes spread by the cold wind. Who will be next? The holy fire is not distinguished and they will never burn all the witches”, logo silenciado pelo crepitar das fogueiras. “Trabalho de magia negra (segundo S. Cipriano)” é liricamente original, uma vez que recorre à enunciação de um ritual retirado do grimório de S. Cipriano. Musicalmente é de realçar a circularidade dos acordes que reverberam insistentemente nas mesmas notas, particularmente ao nível do baixo, facto que proporciona uma atmosfera tenebrosa. Destaque especial para a vocalização distorcida e demoníaca no momento da “exhortatio” diabólica. “Medium” começa numa toada doom instaladora de atmosferas sombrias com teclados etéreos e espectrais, e um ritmo muito lento na guitarra e no baixo. Em termos líricos, a faixa retoma o ritualismo profano e demoníaco em português e latim. Os growls, imprecações e urros demoníacos contracenam com o registo litúrgico e vocalizações limpas, até que a faixa termina num tom black. “O mistério da nau da morte” é uma das faixas mais interessantes do álbum no aspecto lírico. Ouvem-se as ondas do mar e o vento parece esvair-se através das velas “esfarrapadas, estropiadas” dos mastros, enquanto a voz faz a descrição dessa fantasmagoria. A narratividade é um dos aspectos a realçar em “Matéria Negra” e demonstra bem a capacidade criativa que subjaz ao momento da composição. Em “Vultos de uma batalha” regressa a velocidade e o peso do metal extremo. Novamente assistimos a uma enorme diversidade de vocalizações que vão do growl corrosivo ao estrídulo valquírico. Novo sublinhado para a capacidade enunciativa em português, invariavelmente um dos pontos fortes de “Matéria Negra”. A próxima faixa, “Almas penadas”, instaura um ambiente sepulcral e tenebroso. A voz passa do tom sussurrante para o registo gutural e declamatório, desenvolvendo-se em imprecações insidiosas e alucinadas. “O verdugo” é uma faixa assertiva, debitando metal cru em vagas sucessivas e as vocalizações resumem-se aos ocasionais growls, entregando à guitarra o papel mais expressivo. “Licantropo – A maldição” conduz-nos, musicalmente, numa viagem alucinante. Depois da enunciação inicial e dos uivos, escuta-se uma das barragens mais violentas do álbum. De seguida, a voz assume o protagonismo, sendo que a densidade sonora que a envolve continua na máxima rotação, criando um dos momentos mais extremos e pesados de “Matéria Negra”. “Rituale Romanum” é o desenlace perfeito para esta opus diabólica. Esse compêndio litúrgico, escrito em 1614, contém o único ritual formal para exorcismos sancionado pela igreja. A música instala-nos directamente num cenário de exorcismo: enquanto uma voz enuncia o ritual, ouvem-se os gemidos, convulsões, urros e vómitos da criatura possuída pelo demónio. Depois, risos de escárnio reforçam o teor expressivo, contrastando com a solenidade do ritual em latim. Assim, “Rituale Romanum” impressiona, quer pela riqueza expressiva quer pela intensidade dramática.

Em resumo, “Matéria Negra” é uma opus que explora os meandros mais obscuros do oculto, expondo cenários de horror que estão em sintonia com a imagética geralmente associada aos domínios de Fobos e Deimos. O facto de MEDO recorrer sobretudo ao português para a componente lírica confere ao álbum uma maior assertividade e as músicas ganham em termos de fulgor enunciativo e expressivo. Assim sendo, “Matéria Negra” é uma caixa de Pandora que depois de aberta nos confronta com demónios, fantasmas e dramas interiores, explorando de forma catártica os limites do MEDO.