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Metallica e Lou Reed – Lulu

É um facto que, actualmente, os duetos improváveis estão na moda e até o panorama nacional oferece bons exemplos disso, quando nos deparamos, por exemplo, com os Moonspell a vociferarem uma diatribe de guitarra eléctrica mesclada com guitarra portuguesa num dueto surreal com a delicodoce fadista Carminho. Assim sendo, juntar Lou Reed numa parceria com os Metallica até poderia resultar num trabalho surpreendente pela positiva, no entanto, “Lulu” tende a deitar por terra essa ideia.

Relembramos que o projecto de um álbum conjunto surgiu depois de Reed e os Metallica tocarem no 25º Aniversário do “Rock and Roll Hall of Fame”, em 2009, altura em que Reed chegou mesmo a afirmar que ele e Metallica haviam sido feitos um para o outro. Os fãs discordaram da opinião do ex-Velvet Underground e o álbum foi mal recebido. No entanto, ao contrário do que circula abundantemente entre os cibernautas da imprensa panfletária ou mesmo entre a crítica mais conceituada do universo heavy, “Lulu” dificilmente será “o pior álbum do ano” (ainda que se possa admitir que é um sério candidato a “mais estranho”). Mas, na verdade, é fácil admitir que o intróito acústico ao primeiro tema, “Brandenburg Gate”, com Reed num registo “spoken word” demencial e quase catatónico, arrisca-se a ser classificado entre as piores aberturas de sempre para um álbum de música heavy. O discurso é de tal forma tautológico que o registo balbuciado de Reed cruza as fronteiras do sofrível, assentando arraiais na esfera do inaudível, desafinando e esviscerando a canção de qualquer réstia de harmonia musical. A transição do acústico para o eléctrico leva, por momentos, a pensar que Hetfield vai assumir as rédeas do tema, mas, de facto, tudo o que o “frontman” de Metallica faz até ao final é gritar “small town girl”, enquanto Reed prolonga a cacofonia “ad nojum”. “The View” musicalmente apresenta aspectos positivos, com riffs pesados e distorcidos, mas completamente incompatíveis com a voz de Reed, sendo que é apenas quando Hetfield assume o protagonismo que o tema parece descolar e ganhar alguma dinâmica. “Pumping Blood” é um dos raros momentos em que o registo “spoken word” de Reed acaba por funcionar de forma convincente no seio do enquadramento instrumental criado pelos Metallica, talvez porque também a este nível se procura criar o mesmo caos e devaneio que emana da voz de Reed, gerando um efeito de “jam session” alucinada.

“Mistress Dread” tem um início apelativo, mas quando entra a voz embargada e desafinada de Lou Reed percebemos que vamos encontrar apenas mais do mesmo, com a voz de Reed, em certos momentos, a roçar os limites do risível.

Em “Iced Honey” há um maior acerto entre a voz e os instrumentos e a canção tem alguns bons apontamentos melódicos, sobretudo quando a voz de Hetfield constrói o substrato para Reed durante os duetos do refrão. “Cheat On Me” embarca na senda do experimentalismo niilista. O tema desenvolve-se num grau de dinâmica crescente, começando diáfano e etéreo, mas evoluindo no sentido de uma maior organicidade. Canção marcada pela redundância obcecada das palavras que ecoam através dos riffs agressivos e das batidas tresloucadas da percussão, “Cheat On Me” acaba por resultar num interessante exercício catártico. “Frustration” alinha pela mesma batuta conceptual, mas acrescenta um pouco mais de diversidade rítmica através de uma estrutura menos fluida e pautada por diferentes velocidades, oscilando sempre entre o experimentalismo e o registo mais heavy. Em “Little Dog” impera o minimalismo acústico e, na verdade, é neste registo que a voz de Reed acaba por encaixar de uma forma mais convincente. Desprovida de qualquer arrojo cáustico e desnudada de efeitos supérfluos, “Little Dog” é uma canção despretensiosa que deve mais ao universo de Reed do que propriamente a Metallica. “Dragon” é o tema que parece conferir alguma identidade matricial a esta união entre Lou Reed e Metallica. Reed consegue acertar no difícil limbo entre o cantado e o falado e a prestação dos Metallica é explosiva e assertiva, com muita distorção à mistura, novamente, ao estilo “jam session”. “Junior Dad” com a sua toada “requiem” de liturgia perversa e sorumbática prolonga-se ao longo vinte minutos e adquire uma identidade própria com dimensões magistrais. Reed encontra novamente o fio de ariadne e percorre, ainda que de forma, por vezes, titubeante, este labirinto instrumental exemplarmente urdido pelos Metallica.

Assim sendo, “Lulu” deve, na sua génese, muito mais ao próprio Lou Reed do que aos Metallica ou à protagonista da ópera do dramaturgo alemão Frank Wedekind. De facto, é errado pensar que “Lulu” é uma criação híbrida que se encontra a meio caminho entre Reed e Metallica, uma espécie de “Loutallica”. “Lulu” é quase sempre Lou e isso acaba por enclausurar o álbum numa dimensão asfixiante e redutora. “Pumping Blood”, “Dragon” e “Junior Dad” são, no entanto, a excepção que confirma a regra e juntas formam as primícias daquilo que, com uma adequada maturação, poderia ser um universo musical verdadeiramente original e iconoclasta resultante da combinação genética de Metallica com Lou Reed. Acima de tudo há que compreender que estamos perante duas entidades musicais que não têm nada a provar, nem precisam dar contas do trabalho que realizam, ambos alcançaram um estatuto que lhes permite criar pelo simples prazer de produzir um objecto artístico.

Os Metallica não estarão nada preocupados com o facto de “Lulu” na primeira semana ter vendido 15000 cópias, quando Death Magnetic vendera 490000, até porque, para continuarmos a pensar em números, se fizermos uma pesquisa no Google por “Lulu”+”Metallica” obtemos cerca de 47.000.000 hits; se fizermos o mesmo, por exemplo, com o aclamado “TH1RT3EN” dos Megadeth, aquele número baixa para 3.500.000 hits, ou seja, pouco importa que “Lulu” não venda cópias, o facto é que estamos todos a escrever sobre ele e a comentá-lo, e, na verdade, as mais espantosas produções artísticas são aquelas que inspiram no Homem a formalização de uma ideia ou de uma opinião. Para culminar e estabelecendo um paralelismo entre “Lulu” e “Müller no Hotel Hessischer Hof” dos Mão Morta (um trabalho igualmente conceptual e inspirado na obra de outro dramaturgo alemão, Heiner Müller), não podemos deixar de pensar como seria este álbum, se em vez de uma parceria Lou Reed/Metallica, estivéssemos perante uma fusão Adolfo Luxúria Canibal/Metallica…