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MISS TITAN – Porcelain Love

Os MISS TITAN são Frederico Severo e Inês Laranjeira, acompanhados por Sebastião Santos, Davide Lobão e Gualter Barros, ou seja, aquilo que eles próprios definem como um duo com “três tentáculos muito estranhos”.

Agora que nos aproximamos do concerto de apresentação, no Bartô do Chapitô, escutamos Porcelain Love, EP que contém os primeiros eflúvios musicais desta quimera musical e que, à primeira audição, afirma-se como uma mandala eclética de fusão entre indie rock, trip hop e a banda sonora burlesca de uma saça-concerto da Chicago da década de vinte.

Assim, enquanto nos recostamos e deixamos envolver pela névoa onírica exalada por melómanos cigarros imaginários que turva o nosso olhar, soam os primeiros acordes de “Meat & Bones“. Ao fundo quebram-se as notas de um piano. A polifonia instaura-se por entre uma amálgama de sons e guitarras distorcidas, amplificando-se, no momento em que Francisco Menezes irrompe no saxofone barítono e quando Inês Laranjeira oferece a dádiva sensual da sua voz aos nossos ouvidos e continua, em seguida, assumindo protagonismo numa “All your Enemies” que nos lança numa espécie de transe cataléptico no limiar da tensão cardíaca imposta por um baixo que insiste em nos percutir insidiosamente a bigorna do hipotálamo. “Velma Kelly” desperta-nos com o seu jogo alternado de vozes em diálogo. O cenário de clube noturno adensa-se nesta atmosfera vaudeville impregnada de melodias soturnas e decantada por um romantismo saturniano. Depois, quele que será o segundo single, “50’s” tem uma toada lenta e nihilista pontuada pela tensão do baixo e pela irrupção das guitarras que evolam em torno de subtis batidas da percussão.

Ponto, parágrafo, porque é hora de escutarmos o primeiro single “Ghosts & Goblins“, pedra de toque deste universo e música para ouvir até ao riscar da alma no vértice de um lirismo oblíquo e ambíguo na sua dualidade metafísica. De seguida, tudo se precipita velozmente através das ondas de distorção de um epílogo, “Electric Wasteland“, que o não chega a ser…

Em resumo, pudessem todos os registos de estreia ter a dimensão deste EP que de curto tem apenas o formato cronológico e que, em suma, tem a astúcia de dizer muito em poucas canções, algo que deve ser louvado, até porque o sincretismo é uma das qualidades de mais difícil mestria.

Análise de Rui Carneiro