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Mitch Lucker: Crónica de uma morte anunciada [por Rui Carneiro]

“Morre jovem o que os deuses amam”, lembra-nos o preceito clássico de Plauto. Há nesta tragédia ôntica um estigma fatalista de difícil explicação, mas que a visão demiúrgica de Fernando Pessoa, invertendo a antiga premissa, escrutina da forma mais eloquente e expressiva: “Os deuses amam os que morrem jovens porque o absoluto é a sua medida.” Com efeito, era essa ânsia de absoluto que ficou imortalizada na fatídica anotação suicida de Kurt Cobain: “it’s better to burn out than to fade away”.

Mitch Lucker parecia predestinado a ascender à mesma condição de diversas outras figuras icónicas do universo das artes e do espetáculo. De facto, uma espiral trágica de acontecimentos e coincidências lúgubres parecia encaminhar o vocalista de Suicide Silence para a fatalidade. O músico faleceu aos 28 anos (escapou por pouco ao anátema da morte aos 27). Finalmente, tudo parecia encaminhado para que os SS conseguissem um lugar ao sol no universo do metal extremo. A banda surgia fulgurante nos palcos e preparava já o quarto álbum de estúdio. Casado com Jolie Carmadella-Lucker e pai de Kenadee de 5 anos, Mitch era, nas palavras da esposa: “um homem incrível, um pai maravilhoso e um óptimo marido”. No entanto, o vocalista dos SS, segundo conta Jolie, tinha problemas com o álcool e tinha bebido na noite fatídica: “Eu tentei demovê-lo, parei à frente dele, implorando para que não saísse de casa”, mas Mitch amava demasiado a velocidade e o êxtase da adrenalina.

Um prenúncio sombrio surgia meses antes, quando Mitch foi hospitalizado devido à infecção desenvolvida na sequência da fratura do cotovelo e comentou via twitter: “veio uma ambulância a minha casa… e eu acordei dentro dela, porque todos pensavam que eu tinha morrido, aparentemente eu só apaguei & fiz uma sesta.” Mas o augúrio mais nefasto e tétrico seria a última mensagem partilhada naquela rede social, duas horas antes da morte, acompanhada por uma foto tirada, com o próprio telemóvel, onde Lucker aparecia vestido de fato e gravata e com o rosto pintado de forma cadavérica: “The dead are living” (Os mortos estão vivos). Mitch imortalizava assim de forma paradoxal a sua situação: fantasiado de cadáver anunciava que os mortos estavam vivos. Funestamente parecia preconizar a fatalidade da sua condição. A face da morte que o espelho refletia era uma janela sibilina para o seu próprio rosto no futuro próximo.

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No dia 1 de Novembro, o gabinete do delegado de saúde do distrito de Orange anunciava que Mitch Lucker falecera vítima dos múltiplos ferimentos causados por um acidente de mota. Às 20H55 da noite de Halloween, no frenesim da velocidade, Mitch chocava com um poste, na Main Street de Huntington Beach, sendo que a Harley-Davidson só parou quando embateu com uma pickup Nissan Titan. Lucker foi assistido no local por paramédicos, mas acabaria por sucumbir aos traumatismos já no UC-Irvine Medical Center, onde foi declarada a morte por volta das 6H00 da manhã.

O acidente ocorria na noite de todos os “Hallows” (“All Hallows Evening”), uma data atualmente associada à esfera do horror e da morte/renovação, sendo que o músico falecia no dia seguinte, quando se celebram todos os santos, reiterando o imaginário lúgubre e sepulcral e dando lugar à criação do mito.

 

Mitch Lucker 20-10-1984 / 1-11-2012
R.I.P
Aeternum Vale
Rui Carneiro – Rock n’Heavy