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molllust – Bach con Fuoco

A ligação entre o heavy metal e a música clássica, “lato sensu”, transcende as fronteiras de espaço e tempo, na medida em que é inegável que o melhor metal, em toda a sua complexidade, lança raízes e bebe influências diretamente do húmus da música clássica. No entanto, nem todos os solos clássicos são igualmente férteis e fonte de inspiração, de facto, neste âmbito o Barroco e o Romântico foram períodos particularmente fecundos, redefinindo o espectro musical de uma forma tão profunda que a pós-modernidade ainda procura inspiração no manancial dessa cornucópia musical.

Metal e música clássica assentam nos mesmos pilares: melodia, harmonia e ritmo, pautando-se ambos por uma dinâmica matricial “sui generis”.

A introdução do conceito do “sublime” na música, que fez soçobrar o princípio aristotélico do “belo”, deriva, entre outras, das experiências revolucionárias dos compositores do Barroco, na medida em que, explorando o potencial das dissonâncias harmónicas e melódicas começaram a minar de forma indelével as fundações mais convencionais.

No barroco, estruturas intervalares dissonantes como o Trítono, o célebre “diabolus in musica” (repudiado durante o medievo e rotulado como “demoníaco”) seduzem compositores, como Johann Sebastian Bach (1685-1750), sensíveis às suas potencialidades iconoclastas na esfera melódica, e colocam-nos na vanguarda das sonoridades extremas, à época, e parecem confirmá-los como primeiros “headbangers” da história. Entretanto decorreram séculos, até que os epígonos do heavy metal, com as suas guitarras distorcidas, solos rendilhados e melodias eufóricas, assumissem um lugar na ribalta como herdeiros desse espírito de vanguarda.

O EP “Bach con Fuoco” dos cultores do Opera Metal alemão – molllust, que sucede ao aclamado álbum de estreia “Schuld”, inscreve-se nesse mesmo espírito de vanguarda. Neste novo trabalho, Janika Groß, compositora e cerne criativo dos molllust, não visa somente a adaptação moderna das peças de Bach, na verdade, o processo é bastante mais complexo que isso, na medida em que se pretende que as composições do insigne mestre do barroco alemão sejam interpretadas e valorizadas na sua intemporalidade intrínseca, e que todo o seu potencial seja reforjado e temperado através da chama ígnea do metal.

Na verdade, “Bach con Fuoco” recebeu os louros ainda antes da data de lançamento, visto que esta opus reúne, em vinte minutos, quatro temas que granjearam, aos molllust, a vitória no BachSpiele 2012.

O primeiro tema “Präludium in d-moll, BWV 554”, retomando a vocação original, afigura-se como uma composição preambular, algo semelhante a uma sinopse, ou seja, a sua função é preparar a audiência para a restante música. Com efeito, este instrumental pleno de circunvalações rítmicas e melódicas constitui um momento de pura degustação musical.

O coração de “Bach con Fuoco” bate ao som de uma obra-prima da música sacra: “A Paixão Segundo São Mateus”, um oratório de Bach executado pela primeira vez na Thomaskirche (igreja de São Tomás), em Leipzig (terra-natal dos molllust), durante as cerimónias religiosas da Sexta-Feira Santa.

Da “Paixão” ouvimos, depois do “Prelúdio”, a versão da Ária “Blute nur, du liebes Herz. Aus: Matthäus-Passion, BWV 244“ (“Continua a sangrar, meu amado coração”), oportunidade para Janika Groß brilhar em toda a magnificência operática da sua voz. Na verdade, em relação a interpretações oriundas do canto lírico clássico, esta versão exibe fulgor e dinâmicas ímpares, visto que a veia petulante e impetuosa do metal confere outra organicidade à composição, nomeadamente, através da utilização dos instrumentos elétricos. Revolteando em vagas impetuosas sobre um oceano de teclados barrocos e violinos, este tema evolui em crescendo e atinge o zénite nos segundos finais, quando Janika explora os redutos agudos da sua voz maviosa, antecipando a eloquência vocal do tema seguinte.

“Aus Liebe will mein Heiland sterben. Aus: Matthäus-Passion, BWV 244” (“Por amor ao meu Salvador que está para morrer”), a segunda ária da “Paixão”, irrompe originalmente no Ato III, durante o julgamento de Pilatos e antes de a multidão gritar “Crucifiquem-no!”. Esta ária é executada originalmente por uma soprano, pois Bach privilegiava esse registo nas “Cantatas” e Paixões, por acreditar que ele representava a alma do crente. Assim sendo, este é um tema que privilegia o “treble” em detrimento do baixo. Este facto é, mais uma vez, particularmente evidente na voz de Janika ´que, de uma forma particularmente acutilante, toca as notas mais altas num exercício sublime ao nível dos harmónicos. Partindo de uma toada langorosa e clássica, rapidamente o tema evolui para registos mais agressivos, recorrendo-se ao vocal masculino e ao peso e distorção da guitarra. A construção melódica foca precisamente essa diatribe entre o canto cristalino e celestial de Janika e o grave e rouco de Schumacher. Gelo e fogo digladiam-se e conjugam-se para criar aqueles momentos em que a fusão entre o clássico e o metal é mais umbilical neste “Bach con Fuoco”.

Por último, “Ave, nach: “Ave Maria”, Meditation über das Präludium Nr. 1 in C-Dur, BWV 846”, como o próprio título indica, é uma versão da “Meditação” do compositor francês Charles Gounod (1818-1893), composição baseada no Prelúdio Nº 1 em Dó Maior de Bach. A reinterpretação dos molllust, pela carismática voz de Janika e acompanhada de forma singela pelo piano e instrumentos acústicos, evolui num crescendo de energia, partindo da subtil introdução de riffs da guitarra elétrica e com o ocasional acompanhamento da bateria, sendo que o resultado final é uma composição profundamente emotiva, vibrante com o “fuoco” da paixão, e plena de sedução lírica.

Feito isto, em síntese, podemos dizer que “Bach con Fuoco” burila sincreticamente, e de forma ainda mais depurada, as premissas que havíamos apontado em “Schuld”. De facto, este disco promove o ecletismo musical com ainda mais veemência que o álbum de estreia, dado que a fusão entre os géneros favorece, agora, a dimensão clássica. A qualidade das composições é inegável, visto que os molllust elegem, como “corpus” musical, verdadeiras obras-primas da música clássica. Os arranjos de Janika ilustram o domínio e o conhecimento que a compositora possui das obras de Johann Sebastian Bach, conferindo, de facto, um novo “fuoco” à música do mestre. Interpretar e influir novo fogo na obra de Bach nunca seria tarefa fácil, no entanto, os molllust mostraram estar à altura do desafio e cumpriram a missão.