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molllust – Schuld

“The heart is classic, the pulse is metal”

O ano de 2012 deixa-nos algumas filigranas musicais de indiscutível sensibilidade artística.

No que às sonoridades heavy diz respeito, analisamos, hoje, uma “opus” particularmente eclética e iconoclasta. De Leipzig, na Alemanha, chegam os molllust e este “Schuld”.

Terão sido raros os momentos em que a música clássica dançou uma valsa negra conduzida pelo metal com a mesma comunhão visceral que encontramos em “Schuld”. Na verdade, o conceito subjacente aos molllust consistirá, porventura, numa busca incessante pela sublimação desse vínculo entre o metal e o clássico que encontramos em bandas como Nightwish e Therion.

Janika Groß, vocalista e compositora, fala-nos desse desejo de transmitir a beleza sublime da música clássica através de uma sonoridade de fusão entre os géneros que fosse verdadeiramente expressiva. Assim nascem os molllust: “moll” (musicalmente: “menor”, assim são compostos habitualmente os temas da banda) e Lust (prazer, luxúria), ou seja, uma banda que procura fazer da música uma experiência sensorial e saturniana: “Opera Metal”.

Na construção deste universo musical designado como “Opera Metal” são indiscutíveis as influências dos grandes mestres do barroco. Quando ouvimos “Schuld”, ecoam nos nossos ouvidos referências a Georg Friedrich Händel ou ao excelso Johann Sebastian Bach. O piano é um dos instrumentos de referência para os molllust (visualmente essa importância resulta no realce do três “lll” no nome) e podíamos citar Rachmaninoff e Brahms como referências neste caso. De referir que, para a conceção de “Schuld” terá sido fundamental o trabalho de uma das figuras de proa do metal progressivo alemão, Vurtox (Andy Schmidt) dos Disillusion, que assumiu as rédeas da produção.

Desenganem-se aqueles que possam julgar que quando se fala em “Opera Metal” isto se refere ao registo operático comum em bandas como Haggard, Nightwish ou Epica. Na verdade, lançado de forma independente, “Schuld” é um risco assumido pelos próprios músicos, visto que inverte o modelo paradigmático que levou aquelas bandas ao sucesso e instaura o primado do clássico sobre o metal, ou seja, apesar de o metal ter uma forte presença no álbum, a coluna vertebral e a sua estrutura radicular assentam na música clássica.

Analisando “Schuld”, o primeiro tema, “Ouvertüre”, partindo das notas soltas do piano evolui para as canto das cordas: primeiro o langor do violoncelo, depois o estrídulo feérico do violino, finalmente os instrumentos eléctricos, a percussão e a voz de soprano de Janika. Estão apresentados os molllust. Se em “Sternennacht” o alcance operático é ainda ligeiramente convencional, a magistral “Alptraum” faz desmoronar o horizonte de referências e Janika mobiliza a energia concentrada na sua glote para demonstrar o seu potencial para ascender ao panteão das divas do metal. Mais tarde, “Spiegelsee” e “Lied zur Nacht” levarão ao zénite a dimensão lírica dos molllust, com a voz masculina a incorporar uma tonalidade mais cálida ao “corpus” musical. De realçar ainda momentos como “Schatten”, tema que cruza fronteiras e nos pode aproximar de ambientes musicais mais soturnos e próximos do Doom. A última “Kartenhaus” coloca a tónica no incremento da tensão cardíaca, legitimando o mote da banda: “O coração é clássico, mas a pulsação é metal”.

“Schuld” é uma aposta segura para todos aqueles que privilegiam o carácter ecléctico da música. O canto é exclusivamente germânico, mas isto nem chega a ser problemático, porque como podemos ler no “booklet” do álbum: “A música expressa o que não pode ser dito por palavras e não pode ficar no silêncio” (Victor Hugo). Assim, este álbum é uma verdadeira experiência estética que começa visualmente na capa e no booklet, alcançando níveis superiores de exaltação através da música oculta no interior.

Análise de Rui Carneiro