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Monte Penumbra – Heirloom Of Sullen Fall

Heirloom Of Sullen Fall emergiu das trevas pela forja da Daemon Worship Productions, sendo gravado e misturado nos Estúdios UltraSound. O tema «Moonlight Stream Protrude» já tem vídeo oficial, disponível aqui em baixo, realizado pela austríaca Krist Mort.

Monte Penumbra reúne, no “mesmo madrigal de murmúrios soturnos e cavernosos”, membros dos Israthoum e Ab Imo Pectore. W.Ur (Israthoum, Ab Imo Pectore) é o espírito sacrílego e demiúrgico que deu originalmente forma e substância matricial ao imaginário sepulcral e saturniano deste universo, sendo, mais tarde, acompanhado pelo baterista Mons Vcnt (Ab Imo Pectore).

Assim, este novo projeto permite que a força ígnea e criativa de W.Ur arda por novas veredas musicais, diferentes daquelas percorridas noutras bandas. De facto, não trilhamos aqui os caminhos convencionais do Black Metal, na medida em que Monte Penumbra segue direcções mais iconoclastas, que desafiam a ortodoxia do género. Portanto, não causa estranheza que a música “mergulhe nas herméticas profundezas do desconhecido. Uma viagem psicotrópica às cavernas da loucura e às visões enevoadas do vazio…”, algo que em termos puramente estéticos encontra nexos figurativos, por exemplo, com a imagética dantesca de Gustave Doré.

Enquanto disco de estreia, Heirloom Of Sullen Fall oferece-nos um desafio cativante, visto que a opção pelas sonoridades mais avant-garde do Doom/Black Metal, alicerçadas num imaginário tétrico da morte, no nihilismo decadentista e no ocultismo pagão, confere um fértil substrato orgânico ao húmus vital deste projeto.

Ouvir “By Depths Occult” é dar um primeiro passo para o abismo do Estige, com W.Ur oficiando este negro ritual, como Caronte aos remos da sua barca no Lago do Esquecimento. Com ele embarcamos numa viagem experimental de riffs sinuosos e intrincados, eloquentes circunvoluções rítmicas e vocalizações cavernosas. No entanto, temas como “Dark Figure” assumem contornos diferentes, mais melódicos, nomeadamente ao nível da voz, proporcionando uma experiência mais nefelibata e etérea, somando pontos no capítulo da diversidade e capacidade para surpreender o auditório, sendo que as alternâncias de intensidade também contribuem para esse efeito.

“Moonlight Stream Protrude” é a pedra de toque de Monte Penumbra. Na verdade, esta música é o fulcro primordial que inspirou a eclosão desta nova identidade musical. Amálgama de riffs convulsionados por onde a voz desliza firme na escuridão como o voo da coruja entre a cúpula negra e sepulcral dos ciprestes.

A toada mórbida continua a brotar das trevas com “The Trident And a Vagrant” e a cada nova incursão deixamo-nos cativar cada vez mais por este voo invertido às profundezas abissais.

Esta negra caixa de Pandora não cessa de nos surpreender com a diversidade de malefícios que brotam do seu interior, “Kinaesthetic Smoke” é um tema de rutura, uma “danse macabre”, uma distorcida alegoria da caverna, incursão báquica aos redutos telúricos numa senda ritualística e primeva com contornos de Lupercália macabra.

Depois, a ambivalente “Drawn” principia com investidas mais agressivas, logo temperadas por uma maior contenção vocal, para culminar com um recrudescimento de intensidade.

Para o epílogo, fica reservada a intensamente experimental “Circulus Vitiosus”, música que faz jus ao nome e que fecha numa sufocante atmosfera de clausura cíclica este Heirloom Of Sullen Fall, uma das opus nacionais mais hermeticamente fascinantes a sair das trevas durante este ano de 2013.

Análise de Rui Carneiro