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Moonspell – Alpha Noir / Omega White

O novo trabalho de estúdio dos Moonspell apresenta-se como uma opus conceptual que explora, simbolicamente, os conceitos antitéticos que regem toda a ambiguidade do mundo fenoménico, consagrados na filosofia oriental segundo o princípio da dualidade de “yin” e “yang”.

Esta interpretação é legitimada, não só pela matriz lírica dos temas, mas também pelo fato de este ser um projeto de amplo fôlego, que a banda vinha maturando ao longo dos últimos quatro anos. Na verdade, o último álbum de originais, “Night Eternal”, data de 2008 e, desde então, os Moonspell dedicaram-se, quase exclusivamente, a sucessivas digressões na Europa e EUA.

As raízes conceptuais do álbum surgiram logo nos primeiros temas compostos pela banda: “Lickanthrope”, “Love is Blasphemy” e “White Omega”. Se os primeiros temas propõem uma abordagem mais direta e enérgica com ressonâncias mais rock e thrash, “White Omega” explora sonoridades mais melancólicas e etéreas, que contrastam com a intensidade taumatúrgica de “Alpha Noir”.

“Axis Mundi” é um início francamente prometedor para “Alpha Noir”, com o dramatismo da percussão a abrir o caminho para o estrídulo das guitarras e do gutural de Fernando Ribeiro. Outonal e inspirada numa estética da transição, particularmente, nos versos finais: “Equinox in every word/ Falling leaves in every soul”, “Axis Mundi” estipula a vocação assertiva do álbum. De referir ainda o recurso à língua mater em “Ergo a cabeça sim, mas apenas para sentir a lâmina fria que me beija a nuca”, numa escolhas de palavras particularmente acutilante e poética.

“Lickanthrope”, o primeiro single extraído de Alpha noir, evoca um motivo recorrente na mitografia da banda, estabelecendo nexos semânticos com o hino “Full Moon Madness” e com a imagética associada ao Yin, nomeadamente, pela inspiração, báquica, orgiástica e lunar do tema. No entanto, “Lickanthrope” não possui a vocação dramática do tema de “Irreligious”, evoluindo de uma forma mais incisiva e procurando sonoridades mais thrash em deterimento do pendor gótico e saturnal. “Versus” e “Alpha Noir” destacam-se pela dinâmica rítmica das guitarras, ocasionalmente, complementada com solos curtos, mas fulgurantes, pelo que depois de temas com maior projeção lírica, aqueles consagram o virtuosismo dos músicos que constituem os Moonspell.

O introito a “Em nome do Medo” com o baixo a martelar por cima da bateria é particularmente apelativo e, na verdade, este será um dos melhores temas de “Alpha Noir”, destacando-se pela forma como articula uma forte carga lírica com uma envolvente e diversificada componente musical. O simbólico refrão e o fato de ser um tema em português confere-lhe uma intensidade poética ímpar no contexto do álbum. Em relação ao tríptico musical composto por “Opera Carne”, “Love is Blasphemy” e “Grandstand”, ainda que musicalmente apelativos, sente-se que, neste momento, o álbum perde alguma diversidade. Seguindo-se o epílogo instrumental “Sine Missione”, que encerra o álbum de uma forma ao estilo de OST cinematográfica, evocando, pela locução latina, o motivo da luta sem remissão.

No entanto, falta ainda contemplar a outra face deste trabalho e os Moonspell, no próximo capítulo desta saga musical, farão sangrar a veia mais nostálgica de todos aqueles que cresceram ao som do doom e do rock gótico das décadas de 80/90.

Texto por Rui Carneiro