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Muse – The 2nd Law

Os Muse sempre estiveram longe de serem uma banda consensual, desde os seus primórdios, em que eram apelidados de “sósias dos Radiohead”, até hoje, em que cada passo que dão parece ser em falso para os seus fãs hardcore e são apelidados de “sósias de Queen”.

No entanto, a banda liderada por Matt Bellamy parece não querer saber das críticas incessantes dos seus fãs primordiais e decidiu neste registo afirmar e consolidar o que tinha começado no anterior Resistance: uma rutura total com o seu som antigo, mais alternativo, abraçando antes uma sonoridade mais épica e cuidada.

Se em Resistance a coisa não tinha corrido muito bem, aqui os fãs (exceto os que rejeitarão de imediato, apenas por preconceito) têm um álbum bastante bem conseguido, apesar da sonoridade drasticamente diferente dos Muse mais “clássicos”.

A faixa de abertura, “Supremacy”, é, ironicamente, uma das que ainda soa mais a Muse, com os seus riffs distorcidos e o falsete sempre presente de Bellamy, a mostrar que ainda tem um poder invejável na voz.

Se a entrada no disco é muito forte, o ritmo desacelera um pouco com “Madness”, single mais representativo do álbum no espaço mediático, mas que ainda assim se revela uma das faixas mais aborrecidas do cd (a mistura entre eletrónica leve e a toada “à U2” não convence).

A força recupera-se em seguida com “Panic Station”, mistura de funk com rock alternativo que podia ter saído da mente de uns INXS (apesar de o refrão remeter para zombies a dançar ao lado do Rei da Pop), a mostrar uns Muse dispostos a arriscar (e sobretudo, a pôr em primeiro plano a voz de Matt, que parece cada vez mais versátil e uma delícia auditiva).

“Prelude” é uma faixa curta, num tom mais sinfónico, que marca a transição para a afirmação épica deste registo, presente logo em seguida em “Survival”, tema dos Jogos Olímpicos e a faixa mais forte do cd. Se à partida pode ser descartada pelas óbvias semelhanças com Queen (que depois já não parecem tão óbvias), repetindo as audições descobrem-se cada vez mais encantos nesta faixa, seja pela guitarra endiabrada de Matt (que se mostra, neste cd, mais contido, evidenciando-se apenas nos solos, mais “clássicos”), pela garra da faixa em si ou por uma percussão brutal (uma das músicas onde a bateria é mais evidenciada).

Passando por uma “Follow Me” desinteressante, onde a eletrónica (estilo dubstep) se cruza com uma balada, no primeiro namoro dos Muse com o estilo que habita atualmente em todas as discotecas, chega-se a “Animals”, música transcendente que remete para “Uno”, logo do cd de estreia da banda, e se afirma, também, como um dos momentos mais especiais desta quase hora de música.

“Explorers”, pelo registo intimista e doce, que acaba por explodir (claro, ou não fosse esta uma música de Muse) mostra-se uma balada fantástica e faz com que a música seguinte, “Big Freeze”, com a sua dose de guitarradas “U2nianas”, pareça mais interessante pelo enquadramento no cd.

Na reta final, contamos com duas faixas cantadas pelo baixista da banda, Chris Wolstenholme, “Save Me” e “Liquid State”, onde este faz um trabalho bastante competente, mesmo sem a capacidade vocal de Bellamy, sendo que ambas as músicas acabam por surpreender muito pela positiva, seja pela atmosfera espacial da primeira ou pelo ritmo mais acelerado e familiar da segunda.

Por fim, chegamos a “Unsustainable”, a faixa de dubstep que é sem dúvida um dos momentos mais desinspirados dos Muse; existem fusões inesperadas que acabam por resultar bem, mas esta mistura entre rock sinfónico e eletrónica hardcore, sem dúvida não foi uma delas! Felizmente que “Isolated System” encerra o cd da melhor forma, com as notas do piano a construírem uma melodia suave e perfeita para o término de um cd que se mostrou uma autêntica surpresa!

Dito isto, resta apenas dar os parabéns aos Muse, pois conseguiram romper com o que tinham feito até agora (apesar do cd não ter tanta eletrónica como prometido [felizmente?]), mas ainda assim assinaram um registo fantástico, onde misturam as suas mais diversas influências e conseguem começar a criar a sua nova identidade, numa transformação a acompanhar.

Texto por Jorge Martins