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NAMI – The Eternal Light of the Unconscious Mind

Quando pensamos em Andorra, o Death Metal Progressivo não é certamente o primeiro pensamento que nos varre o pensamento. No entanto, os NAMI parecem apostados em colocar aquele pequeno país situado nos limites da península ibérica ao nível de países como a Alemanha no que diz respeito à cena progressiva.

Ecos de bandas como os The Ocean ressoam neste universo musical e, se Pelagial está (para nós) de forma indiscutível entre os melhores álbuns de 2013, Fragile Alignments o precursor, em 2011, deste novo The Eternal Light of the Unconscious Mind, foi largamente considerado pela crítica como uma das melhores opus daquele ano, facto digno de nota, até porque se tratava do álbum de estreia dos NAMI.

Assim sendo, a banda de Andorra confrontava-se, em 2013, com a difícil tarefa de cumprir as elevadas expectativas que o primeiro disco auspiciava. Logo, não será de admirar o interregno de dois anos que os NAMI devem ter considerado indispensável para a criação de uma opus de natureza conceptual. Esta noção é algo que adivinhamos, ainda antes de escutarmos a música, dada a natureza hermética, obscura alegórica e surrealista do “artwork, que traça de forma evidente uma ruptura com a estética de Fragile Alignments, cuja capa tinha cada elemento alinhado de forma cuidadosa e simétrica, criando uma sensação de harmonia que é agora substituída pelo ambiente mais opressivo e dantesco da responsabilidade de Alberto Sánchez Ballesteros.

Transpondo o pórtico, confrontamo-nos com “The Beholders” e, aparentemente, a banda continua igual a si própria. O refinamento lírico é uma evidência e a brutalidade é nota dominante com a intensidade e diversidade vocal também a receber nota alta, visto que além de Nicolás, há ainda a colaboração de Marc Martins (Persefone) e Santi Casas (Mordigans). Assim, encontramos um pouco de tudo neste intróito, nomeadamente, growls desgarrados e cavernosos, contrastando com vocalizações limpídas e melífluas.

No entanto, com “Ariadna”, começamos a sentir a banda transfigurar-se no sentido de uma maior vocação experimental e melódica, facto que não é alheio à contribuição das vozes de Una e Imelda Hartnett. Os growls estão lá e voltam para assombrar o tema já perto do fim, mas as dinâmicas entre a agressivo e o melódico começam a pender mais para este último. “Silent Mouth” parece confirmar essa tese, mas neste caso há ainda que contar com a participação muito especial de Loïc Rossetti , calcinando o substrato melódico com o ímpeto e visceralidade dos seus guturais.

Depois, “Hunter’s Dormancy” promete ser um dos momentos mais pesados do álbum, dado que mesmo as vocalizações limpas apostam numa boa dinâmica e intensidade, contrastando com o tema que se segue, “The Animal and The Golden Throne”, que conta com o saxofone de Efrem Roca (que já tínhamos escutado em Ariadna).

No entanto, aqueles que tinham vibrado com as dinâmicas brutais do álbum de estreia, podem começar a sentir alguma dose de desconforto associada à toada mais experimental deste tema.

Logo, se Fragile Alignments era eufórico e dionisíaco, este novo registo começa a enveredar pelo disfórico e apolíneo, “Bless of Faintness”, “Hope in Faintness” e “Crimson Sky” parecem também apontar em conjunto nesse sentido.

Se “Hope in Faintness” não deixa de convocar o efeito catártico e contrastante do gutural nos momentos finais. A feérica e sussurrante balada “Crimson Sky” fica marcada pela toada delicodoce e atmosférica que apesar de nos seduzir particularmente, pode arredar outros desta musicalidade mais intimista e onírica.

“The Dream Eater” fecha o álbum com a truculência dos seus quase dez minutos de duração e, quando parecia que a banda estava apostada num ambiente de “locus amoenus”, de repente os músicos desbaratam completamente essa ideia. O gutural volta a manifestar-se de forma eloquente e regressam os riffs mais pesados. Roca debita solos de saxofone. Há também o virtuosismo de Carloz Lozano dos Persefone nos solos de guitarra. Um tema verdadeiramente arrebatador na sua magnitude e diversidade que nos deixa indecisos e expectantes em relação ao que podemos esperar dos NAMI no futuro.

Algures entre a lira de Apolo e a flauta dionisíaca de Pã, entre a vocação avant-garde atmosférica e experimental e a volúpia lúbrica e brutal do Death Metal reside o futuro dos NAMI. Mas, por enquanto, resta-nos desfrutar de uma discografia que com apenas dois álbuns já nos disse mais do que muitas bandas em toda a carreira.

Análise de Rui Carneiro