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Noiserv – A.V.O.

David Santos, mais conhecido por Noiserv, tem sido, desde a estreia One Hundred Miles from Thoughtlessness, de 2008 (parece que foi ontem), uma lufada de ar fresco na música alternativa nacional; uma autêntica “one man band”, o português toca todos os instrumentos nos seus cd’s, recheando-os com um lado pessoal a intimista capaz de rivalizar com a melhor folk mundial.

Assim, sendo incapaz de passar despercebido pela crítica especializada, que rapidamente o aclamou, o músico entrega neste segundo longa-duração, Almost Visible Orchestra (A.V.O.) uma mistura ainda mais refinada da sua música melancólica que tão bem combina com o Outono que já vai atingindo o auge, não só correspondendo às expectativas, como ultrapassando-as.

Começando pela capa do álbum, em forma de puzzle, mostra que David Santos rejeita o formato single que parece dominar a indústria da música com as suas faixas recicladas e para reciclar, entregando-nos, em vez disso, um verdadeiro disco, no sentido conceptual da palavra, com 10 músicas que não fazem sentido sozinhas, pois é quando estão juntas que se conjugam e complementam da melhor forma… Como a um puzzle, se me perdoarem a analogia óbvia.

“This is maybe the place where trains are going to sleep at night” abre o album da melhor forma, com a voz emotiva de Noiserv a soar refrescante por entre os seus laivos de guitarra acústica, dando forma às pequenas narrativas que compõem o álbum, tristes, mas que sabem tão bem.

Dos singles já lançados para promover A.V.O., “Today is the same as yesterday, but yesterday is not today” não impressiona, talvez pela toada mais etérea, quase infantil, da melodia, que contrasta imenso com a sobriedade da letra cantada, a exigir outro tipo de acompanhamento. Por outro lado, “I was trying to sleep when everyone woke up”, com o seu acordeão subtil e diversas texturas instrumentais sobrepostas é algo simplesmente sublime na sua falsa simplicidade.

Se há algo que cativa nas músicas que David Santos, é o contraste quase pecaminosamente fantástico que existe entre a delicadeza da sua guitarra dedilhada (e ocasionalmente, piano) e a sua voz grave, enquanto vai narrando as suas histórias, quase sempre melancólicas e sempre catárticas, como se vê na lindíssima “It’s easy to be a marathoner even if you are a carpenter” ou em “I will try to stop thinking about a way to stop thinking”, melhor momento do cd e um verdadeiro teste de resistência às lágrimas; se a discussão sobre músicos nacionais cantarem no seu idioma ou em inglês normalmente já é algo sem sentido, neste caso ainda o é mais, pois David Santos consegue demonstrar tanta emoção e intimismo no idioma nacional que nem por um segundo ponderamos pedir-lhe que o faça de outra forma.

No meio disto, ainda há tempo para brincar com a elelctrónica, como Noiserv também já provou ser fã de fazer, bem ao jeito dos Radiohead modernos, pelo que basta ouvir-se “Life is like a fried egg, once perfect everyone wants to destroy it”, recheada de teclados que a impregnam de suavidade, complementados pelo já familiar acordeão e por coros desarmantes.

Chegados ao fim, por entre suspiros outonais e a voz de barítono de David Santos a ecoar na nossa mente, pomos o cd a tocar de novo e de novo e de novo, impressionados pela falta de “tiros ao lado” e por uma coesão tremenda que resulta numa experiência surrealista de emoções fortes, capaz de rivalizar com os maiores nomes mundiais, sem ter de pensar duas vezes.

Não fosse a “bomba” que foi Turbo Lento e estaria aqui o cd nacional do ano; assim, resta-nos só agradecer ao David por uma banda-sonora para uma vida inteira.

Análise de Jorge Martins