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O Abominável – Enteléquia

Depois de um excitante EP em 2013, eis que chega o álbum de estreia de O Abominável, uma banda portuguesa de rock alternativo que tem prometido encaixar-se perfeitamente na primeira linha do rock underground que tem tido vagas de grande qualidade no panorama nacional, encabeçados por nomes como O Bisonte ou, mais recentemente, Os Alice.

Enteléquia é, acima de tudo, um álbum intelectual; não que seja difícil de digerir, pois a maioria das músicas são rock ligeiro e encantador, mas desde os títulos (palavras caras e pouco vulgares dão o nome à maioria das faixas e ao cd em geral) até à execução inteligente, vista na precisão com que as melodias combinam (vejam-se as cordas discretas em “Fleuma” que desembocam numa guitarrada jazzy perto do final) e, sobretudo, nas letras, sendo este um dos álbuns liricamente mais ricos dos últimos tempos na música portuguesa.

Musicalmente é difícil localizar precisamente onde se encontra O Abominável, parecendo estar algures entre os Ornatos Violeta de O Monstro Precisa de Amigos (o timbre e estilo do vocalista Vítor Pinto lembra muito o de Manuel Cruz) e O Bisonte em modo “Quarto 210”, apresentando um rock pesado em emoções, melancólico e a dar primazia a jogos de melodias em “lume brando” em vez de explosões, numa contenção falsamente doce que não engana a raiva escondida por detrás de cada uivo do vocalista.

O momento mais acelerado de Enteléquia será “Rasto”, inicialmente limpa e liderada por uma guitarra clean confiante, acabando por distribuir riffs de peso “à Sabbath”, numa faceta que também assenta bem à banda e faz lembrar outro projecto de Manuel Cruz, neste caso os Supernada, visível também na épica “Palavra do Eu” com o seu solo emotivo, ou na sensual “Mónade”, com a sua passagem “A primeira vez que me senti dentro dela/ Ela não era alguém” e riffs dançáveis e insinuantes a dominarem a faixa.

No entanto, quando a banda desacelera, ganha em emotividade o que perde em peso e, seja através de momentos abertamente sentimentais como a fantástica “Calíope”, melhor momento de Enteléquia ou da lenta faixa-título e do seu momento liricamente arrepiante de “Não quero que a morte seja um favor/ Sempre desejei não morrer”.

Existem alguns momentos menos bem conseguidos, como a experimental “Um Circo e Tu” que leva a banda para um lado mais próximo dos Linda Martini que não lhes fica bem, tal como a final “Corda” e o seu flirting com o hip-hop que resulta num desfecho final para o álbum, mas que são experiências naturais para ma banda que está no primeiro cd e, como tal, ainda se está a descobrir e à sua identidade.

Apesar disto, Enteléquia é um álbum capaz de pôr O Abominável no mapa e na vanguarda do rock alternativo português, com músicas agridoces e que dão sempre prioridade à emoção, juntando ainda letras capazes de rivalizar com o fenómeno Alice.