free website stats program

O Bisonte – Abril

Ao terceiro álbum, O Bisonte já é um dos grupos mais respeitados e reputados do underground português, com o seu rock musculado cuja única regra a obedecer é a intensidade constante a conquistar adeptos quer nos fãs, quer na crítica.
Depois da grande aclamação de Mundos e Fundos, os portuenses decidiram tomar para si mesmos um mês e editaram Abril, que encerra 9 músicas que, em conjunto, são uma grande descarga eléctrica pela espinha que mais uma vez não deixará ninguém indiferente.

O estilo peculiar do grupo prima por dar destaque à honestidade nas letras e intensidade na melodia, mesmo que para isso se sacrifiquem algumas regras do formato canção, como rimas imperfeitas, vocais ora rasgados, ora falados e melodias extravagantes que dão uma peculiaridade a O Bisonte apenas superada pela sua emoção inabalável.

“Abutres”, agressiva e frontal, abre o cd de forma directa ao assunto e da melhor forma, com uma melodia incisiva e uma voz disposta a abrir as hostilidades (quase literalmente), seguindo-se a brincalhona “Ruína”, liderada por um baixo musculado que chega a dar ares de Ornatos Violeta na fase de Cão! com o mesmo estilo melódico, que, embora fique inegavelmente no ouvido, acaba por se alongar um pouco demais (contribuindo para isso uma letra também pouco inspirada).

Segue-se “Março”, em que voltamos à fórmula de hard rock de pêlo na venta, “explodindo” perto do final num clímax emocional que por si só, consegue tornar a música interessante, antes de se abrandar bruscamente o ritmo com “Fado”, em que o ambiente etéreo tem como único intuito servir os vocais, numa letra honesta como sempre (ainda que nem sempre adequada), com um refrão “peganhento” (no melhor sentido possível) a salvar uma faixa que de outra forma não passaria de uma nota de rodapé (embora conte com uma transição final bastante agradável).

A metade de Abril fica marcada por “Hércules”, em que devoção ao sentimento volta a estar como palavra de ordem, embora seja uma música marcada por uma extensão demasiado alarga para si mesma, sobretudo quando nunca há grandes transições ou interlúdios que a impeçam de se tornar aborrecida, pecado que não é cometido pela seguinte “Roda”, sempre apelativa e, por ser curta, frontal e enérgica como se quer (leva mesmo o prémio de faixa mais pesada do álbum, com momentos a roçar o Hardcore).

A recta final de Abril começa com “Midas”, uma música que pouco acrescenta ao reportório d’O Bisonte, revelando-se formulaica e sem grande coisa para oferecer além da intensidade habitual da banda, melhor traduzida noutros momentos, enquanto que a seguinte “Norte” se apodera do negrume presente nos músicos do Porto e dá forma a uma música sombria e solene, que, embora também peque pela extensão e por uma prestação vocal fraca, tem algumas transições notáveis e uma guitarra endiabrada que faz a faixa valer a pena.

Encerrando Abril, temos “Barco”, num registo novamente mais lento e hipnotizante, com uma letra memorável (“Por dar alguém/O que promete a vida toda/Dinheiro, amor e uma foda/Motivos para a liberdade”) envolvida numa melodia que nunca “rebenta”, mas não perde por isso em emoção e que encerra o registo da melhor forma possível.

Desta forma, depois do sucesso de Mundos e Fundos, O Bisonte tinha uma missão espinhosa em Abril e, se é verdade que não é um disco perfeito, continua a ser uma pérola no cânone do rock alternativo português, num registo cujo suor, sangue e lágrimas chegam a transparecer na audição… E, afinal, o que se pode pedir a mais que isso?

Análise de Jorge Martins