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O Bisonte – Mundos & Fundos

Ainda não decorrera um ano desde a edição de “Ala”, quando O Bisonte entrou nos portuenses Estúdios Sá da Bandeira para gravar “Mundos & Fundos”. O objetivo era simples: enveredar por uma experiência musical verdadeiramente despojada, direta e humana. De facto, enquanto alguns esgravatavam o artifício subtil e as filigranas da produção, a banda do Porto devolvia o protagonismo aos instrumentos, recusando qualquer contaminação informática, em busca de uma matriz toda ela feita de aridez, nudez e arrojo rock.

O Bisonte é uma criatura indolente, deslocando-se pachorrenta, enquanto mastiga e rumina alguns tufos de erva seca, mas, ciclicamente, chega o tempo da migração e a manada irrompe pela pradaria; uma massa homogénea e frenética, feita de músculo e osso, capaz de esmagar tudo aquilo que ouse barrar-lhe o caminho. Musicalmente, O Bisonte comunga da energia primeva e brutal do animal. Na américa do norte, chamam “stampede” à onda musculada que estes animais lançam através das pradarias, lembrando o étimo da palavra – “estampido” – visto que o troar de milhares de cascos no solo duro e sedento, produz sons semelhantes a uma única e monumental explosão.

“Stamp Rock”, assim podia designar-se a identidade musical d’O Bisonte, a singularidade da classificação é da nossa responsabilidade e radica nos diversos nexos semânticos e conceptuais que a ligam à música d’O Bisonte. Na verdade, uma amálgama de “cascos” parece abater-se sobre nós, quando somos confrontados com a avalanche sonora de “Mundos & Fundos.”

O canto é luso e demonstra cabalmente que, ao contrário do que se diz por aí, a língua de Camões consegue transmitir toda a ferocidade visceral e corrosiva do rock mais nu e cru – Davide Lobão grita “presente” – lobo em pele de bisonte, ou vice-versa, o “uivo” brutal do vocalista ecoa nos corações e acelera a “manada” para lá da velocidade terminal da debanda.

Com efeito, “Debandada” é o primeiro single extraído de “Mundos & Fundos” e afirma-se como um manifesto punk-rock desde o primeiro instante, mas é sobretudo no refrão que os decibéis e a força das palavras estão no apogeu: “Ei! Memórias são pontes de alcatrão/ Eu não quis o que te disse/ Não te vi como se visse/ Onde interessa o que eu sei?”. Antes, tínhamos escutado a frenética e panfletária “Três Vivas”, um grito contestatário centrado na realidade atual e, possivelmente, o tema mais socialmente empenhado do novo trabalho. “Músculo” é, como o título estipula, uma investida musculada na dimensão mais agreste d’O Bisonte, plena de força bruta, vocalizações rasgadíssimas e muita distorção nas guitarras. “Golias” é uma das canções mais sublimes, subliminares e metafóricas do álbum. Há uma busca notória por um hermetismo do dizer e um regozijo na utilização da palavra oblíqua. A inquietante e sorumbática “Mundos e Fundos”, prolongando-se por mais de seis minutos, explora, musicalmente, cenários de “locus horrendus” e define-se na sua originalidade pela forma como cada instante é escalpelizado com uma paciente sofreguidão que parece contrastar com o imediatismo dos temas iniciais. Na verdade, o “miolo” do álbum mostra que este Bisonte mais vetusto procura oportunamente “ruminar” e complexificar as canções sem, no entanto, abdicar da canónica tendência para a “stampede”. “Seis Estátuas” é um tema centrado na existência e apresenta uma profunda carga simbólica relacionada com o número 6. De facto, relembramos que o “senário” é um número triangular com a particularidade de ser, ao mesmo tempo, duas vezes três. Hermeticamente, produto de 1 X 2 X 3, o seis carrega as ideias de criação, evolução, perfeição e finitude. Intrínseca a esta configuração em hexagrama está a ideia basilar da música: “por eu não ser, não querer mudar, por agarrar e querer matar; Não vais nem vens recomeçar, eu sou peso a destoar”. “Bula”, a cada audição, continua a reverberar insidiosamente nos impulsos elétricos disparados aos fogachos através das nossas sinapses cerebrais. “Tudo de Bom” é o epílogo natural para “Mundos & Fundos”, até porque aponta para o conceito de finitude, e podemos interpretá-la como um cumprimento para todos aqueles que em manada escutam, aceleram e vibram ao som d’O Bisonte.

“Mundos & Fundos” é a afirmação da maturidade d’O Bisonte. De facto, a besta cresceu, tem muita lã na venta e já ultrapassou a tonelada de peso. Mais importante, O Bisonte compreendeu que o seu habitat natural é a extensão selvática do palco, e o novo álbum captura toda a intensidade e brutalidade nua e crua da “stampede” que a banda promove “ao vivo”. O Bisonte está irascível, inconformado e inabalável nas suas convicções, assim sendo, quando carrega em debandada, nós cerramos os dentes e investimos também na loucura desenfreada da manada.

Texto por Rui Carneiro