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O.Children + Agent Side Grinder + Sexy And Color [Hard Club, Porto]

Antes de começar, uma nota prévia: é cada vez mais evidente o valor e preponderância da Muzik Is My Oyster como promotora de espetáculos, ativa na atração de bandas internacionais ao nosso país, sem esquecer a inclusão de bandas nacionais promissoras. Com um pé no legado inesquecível do passado, outro bem apoiado no presente, e com olhos postos nos sons que recordaremos no futuro, tem sido regulares no desenho de line-ups irresistíveis, como pôde voltar a comprovar-se no Hard Club, numa noite em que se assistiu ao regresso a Portugal dos Agent Side Grinder e O.Children, aos quais se juntaram os Sexy And Color.

Os jovens nortenhos Sexy And Color deram o tiro de partida praticamente à hora marcada, e com uma sala ainda pouco preenchida.
Com um EP e o álbum “Start / Stop” em carteira, foi neste último que assentou o set list, tocado de um fôlego, fazendo render ao máximo o slot de meia hora que lhes tinha sido confiado.
Os apelos frequentes do vocalista e teclista André Silva a um maior entusiasmo na plateia foram, no entanto, um tanto infrutíferos, já que a sala estava claramente expectante pelas bandas seguintes.


Quem passou nos últimos anos pelo Festival Entremuralhas já sabia o que esperar daqui para a frente: os suecos Agent Side Grinder trouxeram um “blend” personalizado de post-punk, industrial, dark wave, synth-wave, etc (neste caso, um grande “etcetera”). Sem guitarrista nem baterista, a presença em palco do quinteto de Bromma era dominada pela maquinaria eletrónica que quase remetia o baixista Thobias Eidevald para segundo plano. A postura robótica – à la Kraftwerk – de Peter Fristedt enquanto manobrava um leitor de fita magnética contrastava com a espetacularidade do vocalista Kristoffer Grip, inquieto de princípio ao fim, frequentemente em danças espasmódicas, e cuja figura lembra, em alternância, a dos idos Ian Curtis ou David Bowie.
O álbum “Alkimia”, praticamente a fazer um ano desde o seu lançamento, e o anterior “Hardware”, de 2012, estiveram em destaque nesta atuação, com temas como “Into the wild”, “Look Within”, “Mag 7”, “New dance”, “Void (The Winning Hand)”, ou a aclamada (e viciante) “Giants fall”. Decididamente, a grande atuação da noite.


Já pela meia noite, tínhamos de novo em Portugal outra banda já conhecida deste público, veterano e conhecedor. A prestação dos londrinos O.Children no Entremuralhas de 2014 deixou saudades, e foi a ovação de uma sala cheia que acolheu um enorme Tobias O’Kandi e seus companheiros.
De facto, tudo parece pequeno quando comparado com o vocalista de origem nigeriana: os seus quase dois metros de altura fazem com que até a sua guitarra pareça minúscula, mas é sobretudo a sua voz grave e profundíssima que toma de assalto a nossa atenção, e mesmo ao vivo não apresenta falhas.
A performance flui tal como nos seus dois únicos álbuns (“O.Children” de 2012 e “Apnea” de 2012): emocional e elegante.
Durante uma hora, ouviu-se “Malo”, “PT Cruiser”, “Swim”, “Ezekiel’s Son”, “Heels”, “I Know (You Love Me)”, “Radio Waves” e claro, a já mui rodada “Dead Disco Dancer”.
Uma banda que vai buscar o seu nome a uma canção de Nick Cave não faz questão, certamente, de esconder as suas referências: o post-punk / goth / “alt eighties”, tudo trazido para o século XXI, é coisa que pode perfeitamente funcionar, e os O.Children mostraram como se faz.
Noite memorável.


Fotografia e texto: João Fitas
Agradecimentos: Muzik Is My Oyster