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O ensino superior é inútil?

Mãe, quem disse aquela frase acerca dos cadáveres adiados que procriam?

O que são cadáveres adiados? Quem os procria?

Que mais queremos adiar, além da nossa própria carcaça?

Como uma tômbola, giram todos os dias, os dias, ponteiros das 24 horas, qual gôndola que nos leva da manhã à noite, num embalar inigualável de café, jornais, conveniência e sorrisos amarelos.

Acho que deixarei, por agora, o tom poético. Realmente, quem somos nós? Cadáveres adiados de sonhos não concretizados? Estudantes! Terá o sonho algo a ver com o ensino? O sonho ensina-se?

E se dissermos que não? E se eu tentar dizer que não? E se eu, que estou neste preciso momento a gravar a voz para o meu projecto final de curso, vos disser que sinto uma inconsequência enorme no resultado final deste vídeo?

Vale-nos a todos a esperança de que o nosso curso de humanidades nos dê um bom currículo, com uma boa média que resultará num bom emprego. Bolonha disse-nos que sim, os nossos pais disseram-nos que sim, mas a horda de ex-estudantes que invade os cafés, em conversas de emigração, depois do seu turno na caixa de super-mercado discorda. Eles não estudaram Ciências da Comunicação para perguntar “é tudo?” ou contar trocos. Eles não desperdiçaram 3 anos da sua vida e o dinheiro dos pais num curso de Psicologia para serem os seus próprios motivadores, num país que se recusa a fazê-lo por eles.

Bolonha convenceu-nos que o extra-curricular resume-se a levar os livros para casa. “Não se estuda apenas nas aulas. O trabalho tem de vir do aluno”. Claro que tem. Mas não será Bolonha mais que uma lista enorme de requisições na biblioteca da universidade? Não será Bolonha uma descentralização do ensino superior no patamar daquilo que devem ser as prioridades de alguém com 18, 20 ou 22 anos?

Acho que todos perdemos a noção daquilo que devemos ou não fazer. A falta de esperança no nosso país não nos impede de estudarmos, inconclusivamente, com direcção, mas sem rumo. Com objectivo, mas sem concretização. Pelo sonho mas sem sonhar.

Acho que o que quero dizer é que, como todos, tenho medo. Tenho medo do futuro, tenho medo do meu país, tenho medo do que o meu país pode fazer por mim, Mãe. Tenho medo do que posso fazer pelo meu país, Mãe. Tenho medo do que não vou poder fazer pelo meu país, Mãe. Tenho medo de já não saber o que o meu país quer de mim. Tenho medo, Mãe! Tenho tanto medo! Tenho medo de estar completamente errado e tenho medo de estar completamente certo. Tenho tanto medo!!!

O ensino superior ainda é útil? Não sei. Mas começa a parecer que não.