O Público Fantasma

Banner RnH

“Temos de apoiar o underground nacional” – Qualquer fã de heavy metal residente em Portugal ou que frequente canais de informação nacionais sobre o género já ouviu /leu esta frase vezes sem conta, e o consenso geral aparenta ser que não há absolutamente nada de negativo nesta corrente de pensamento. No entanto, tal como a esmagadora maioria dos chavões, é um conceito demasiado vago para não originar formas de pensamento tóxicas que provocam um efeito contrário ao desejado.

Obviamente, é preciso apoiar o underground, no sentido em que deve-se ter em mente o facto de uma banda poder ser boa mesmo sem ter grande projecção, sem fazer parte de uma editora grande, sem ter um videoclip ou músicas lançadas com grande produção, coisas que, apesar de serem muito mais acessíveis hoje em dia, a sua ausência ainda se deve mais a falta de recursos monetários do que propriamente à falta de habilidade artística, sendo essa habilidade e o gosto pessoal de cada um os principais factores que devem promulgar a criação de fãs. Agora que tiramos isto do caminho, exploremos dois dos corolários mais comuns desta corrente de pensamento que são frequentemente atirados para a mesa sem pensar, ambos envolvendo o acto de cobrar presenças nos concertos. É incrivelmente comum, principalmente vindo de músicos e promotores, que sejam repetidas as seguintes dicotomias:

– “Dizes que gostas de metal mas não vais a nenhum concerto underground!” – direccionada aos fãs;

– “Queres que apoiem a tua banda mas não vais aos concertos de ninguém!” – direccionada aos músicos;

Apesar da minha tendência em pensar primeiro como fã e só depois como músico, é um raciocínio conjunto de ambas as partes que me permite concluir que estas afirmações estão tremendamente erradas. Como fã, gosto de ir a concertos de bandas que me agradem pela sua qualidade ao vivo, e como músico, sinto-me realizado quando dou concertos de qualidade. Aqueles dias em que partilho o palco com bandas que gosto são os melhores dias, porque além de dar um concerto, algo que adoro fazer, ainda posso ver um ou dois concertos de bandas que gosto. No entanto, seja em que cenário for, tenho o hábito de me retirar quando não gosto da banda que está a actuar, algo que aparentemente é uma grande ofensa para alguns cavaleiros brancos. A principal razão pela qual o faço, apesar de ser contra os mandamentos não-escritos dos fãs/músicos de metal, deve-se ao facto de ser uma enorme falta de respeito eu estar no público numa situação dessas.

Passo a explicar: não estou a fazer favor nenhum aos músicos estando lá a marcar presença como uma espécie de espantalho que apesar de dar vivas e bater palmas entre cada música, na realidade está a gostar de pouco ou nada do que se está a passar em palco. Os músicos não ensaiam horas a fio nem gastam rios de dinheiro em manutenção dos projectos para no final serem presenteados com condescendência, algo que eu odeio visceralmente que me façam. Prefiro actuar para dez pessoas que realmente gostem daquilo que estou a fazer do que estar a dar tudo o que tenho para cem pessoas cuja maioria só está ali porque quer “apoiar o underground”, apesar de acharem o concerto desinteressante. Qualquer comentário relativamente a presenças em concertos motivadas por algo que não o gosto pela actuação são apenas filosofias de café atiradas por quem aprecia imenso ver casas cheias mas falha em questionar o porquê de estarem cheias e o valor que isso realmente tem.

Eu sei e entendo perfeitamente a sensação de uma casa cheia: faz-nos sentir os maiores, como se fôssemos uma banda grande, tal e qual aquelas que admiramos. Também sei o quão difícil é ter de pagar cachets e como é complicado dar um pagamento justo a três ou quatro bandas a 5€ por entrada. No entanto, qualquer banda consegue encher uma casa se aplicar as dicotomias acima mencionadas ao pedinchar o suficiente a amigos e/ou aos defensores do underground, no entanto, de que vale ter público que lá está a “fazer o frete”? Qual é o valor de ter cem pessoas numa sala quando só cerca de vinte ou trinta é que estão realmente a sentir algo com a música que está a ser tocada? Será que temos tão pouco respeito pela nossa arte que aceitamos cegamente este público fantasma em detrimento da possível fragilidade do ego dos músicos?

Por outro lado, a constante culpabilização do público por “não apoiarem o underground” faz as pessoas sentir que há obrigações implícitas na apreciação da arte, consequentemente fazendo-as sentir que não são inteiramente bem-vindas e que o seu gosto pessoal não tem valor. O público é uma amante instável, tornando ainda mais difícil (mas não impossível) o acto de encher uma casa com tantas bandas e tantos eventos viáveis no seio de um underground extremamente activo. Gostar de música é simples: se acharem que as bandas não têm atenção suficiente ajudem a divulgar, apareçam nos concertos das bandas que gostam se acharem que a prestação ao vivo vale a pena, e isto aplica-se que a músicos ou a fãs, porque todos os músicos também são fãs. A porta dos concertos que dou e/ou organizo estará sempre aberta, venham se quiserem, tenho imenso prazer na vossa presença e não vos cobro a ausência.

Lembrem-se: os fantasmas não existem.

Autor: Ricardo Pereira (Moonshade)