free website stats program

As origens do Moshpit

Ir a um concerto de metal, em particular numa das suas variantes mais extremas como o thrash ou o death, de hardcore ou até mesmo de punk e não haver pelo menos um pequeno mosh pit pelo meio é sempre de estranhar. Tendo em conta que é já uma prática habitual, que está intrinsecamente ligada ao ambiente vivido neste tipo de concertos, e a sua enorme popularidade entre o público alvo destes estilos, quer seja em grandes festivais ou em pequenos concertos locais da cena underground. Como tal,lanço a questão: de onde é que esta prática surgiu, e como é que se tornou um hábito tão grande e popular?

Podemos traçar as origens do mosh ao movimento punk londrino da década de 1970 com o pogo dancing, um movimento comum de dança ligado à cultura punk dessa década que consiste em saltar para cima e para baixo com os braços rígidos ao lado do corpo, numa posição paralela a este. Acredita-se que o tal tenha sido criado por Sid Vicious, famoso baixista dos míticos Sex Pistols e inicialmente fã destes. Este movimento, que surgiu com o intuito de provocar e de causar o caos nas plateias, em especial junto de todos aqueles que iam aos concertos e ficavam lá parados no meio sem se mexerem, rapidamente se propagou e se tornou uma das imagens de marca do rebentar do punk primeiro em Londres, e mais tarde nos EUA, em especial na cena de Nova Iorque, nos concertos das bandas locais dentro desse estilo (sendo a mais famosa os Ramones), no mítico club CBGB.

Este movimento rapidamente ganhou fama e estendeu-se pelos EUA, tendo chegado à Califórnia, em especial a Los Angels, na época em que o punk hardcore rebentou. Bandas como os míticos Black Flag, Bad Religion ou Middle Class foram a resposta californiana ao punk,  e com eles veio uma nova forma de dança, o hardcore dancing, conhecido como slam dancing, algo que se aproxima ainda mais do mosh como o conhecemos hoje.

No entanto, o mosh com as características, tomou forma com as primeiras bandas de thrash metal na Califórnia (Los Angels e Bay Area – S. Francisco), no ínicio da década de 1980, onde rápidamente ganhou adeptos e se tornou uma das imagens de marca do género na altura. Ao falar da evolução do mosh temos obrigatóriamente que falar também da criação e da evolução do thrash metal, como estilo musical extremo de eleição da altura, que foi uma resposta em contra corrente às tendências existentes dentro do metal na altura (hair/glam metal) que eram mais mainstream. O thrash era música de combate, de crítica social e uma escapatória para a raiva e outras emoções negativas, e o mosh era a representação disso mesmo, tanto que esta prática foi “imortalizada” em algumas das músicas mais conhecidas do estilo, como “Toxic Waltz” dos Exodus, ou “Caught In A Mosh” dos Anthrax.

Associado a este veio também a popularização do stage diving, e mais tarde do crowd surfing. As três práticas aliadas deixavam uma atmosfera de loucura e até de violência nos concertos, tanto nos do underground como nas salas maiores, resultando que no final houvesse muitas vezes sangue pelo chão dos recintos, como até alguns ferimentos ligeiros. Estes perigos no entanto, não desencorajavam os adeptos desta forma de vivência em concertos, ter estas “marcas de guerra” e uma história para contar no final falava sempre mais alto. Apesar deste estar intrínsecamente ligado ao thrash metal, e até mesmo ao punk hardcore, aquando do surgimento de outros estilos mais extremos e violentos no final desta década de 1980, como o death metal e o grindcore, o mosh rapidamente ganhou lugar nos concertos destes estilos, como continuou a crescer e a conquistar cada vez mais o underground.

Esta prática atingiu o mainstream quando o grunge e o alternative rock começaram a dominar o meio musical na década de 1990. No entanto, um incidente que teve lugar no ano de 1996 num concerto de Smashing Pumpkins em Dublin (Républica da Irlanda), acabou por resultar na morte de uma jovem espectadora quando esta foi esmagada contra as grades no meio da confusão na plateia que começou com um mosh pit, foi bastante mediatizado vindo causar imensa polémica à volta desta tendência. A banda já se tinha insurgido em público um ano antes contra este comportamento nos seus concertos, veio com esta ocorrência vincar ainda mais a sua opinião. Apesar de não ter sido um acidente único, este foi de longe um dos que mais cobertura mediática teve, o que contribuiu para reforçar ainda mais o estereótipo de violência gratuita associado ao mosh pit (e práticas semelhantes) nos concertos de música mais extrema e alternativa.

Com o rebentar da popularidade do nu-metal e de bandas como Slipknot, Korn, Disturbed, System Of A Down, etc., a encherem estádios e festivais como Wacken Open Air ou o Ozzfest, entre outros, o mosh cresceu e evoluiu, tendo daí resultado duas novas tendências. A primeira, conhecida como circle pit, consiste em correr dentro de uma roda, em círculo, até esta ir fechando e depois em seguida culminar num mosh na reabertura do espaço. A outra foi a Wall Of Death, considerada por alguns a mais violenta de todas estas práticas, na qual o público se separa em dois lados, e aquando do auge da música, correm um contra o outro em toda a velocidade.

Actualmente, tanto o mosh, como as suas variantes e derivadas, são práticas bastante comuns nos concertos de música mais extrema, o que levou a que fossem criadas regras não oficiais de etiqueta, nas quais se estabeleceu que quando alguém cai ajuda-se a levantar, não haver contacto sexual ou de assédio, não utilizar jóias ou pulseiras com picos para não magoar os outros, e ter o cuidado de proteger todos aqueles que não querem estar no meio do mosh de modo a que possam desfrutar dos concertos à sua maneira sem grandes incidentes. Estas regras vieram ajudar a afastar a imagem de violência gratuita associada a estas práticas, bem como a instalarem um espírito de amizade e camaradagem nos concertos.