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Os músicos Portugueses são um belo petisco – Parte 1

Os músicos em Portugal são convenientemente tratados como presas na cadeia alimentar do seu próprio mercado. Convenientemente porque muitos partilham o interesse que assim seja e se mantenha. Desde os anos 90 que é clara a desvalorização da mão-de-obra musical, e assim chegamos aos dias de hoje, em que os clientes desta espécie inferior tentam fazer crer que é um privilégio para os músicos ter uma hipótese de tocar, que não se deve olhar a receitas mas sim ao grande passo na sua carreira que é tocar no sítio x ou y. Aliás, um músico de divisão baixa ou intermédia que olhe para os valores do seu cachet é conotado como mercenário, pois está a associar a sua arte ao mercado, e tal é vendido como heresia no mundo artístico.

Através de anos e anos de lavagens cerebrais e lamentos sobre crises e falta de afluência aos concertos, boa parte dos músicos estão agora convencidos de que a sua arte não se rege por números mas por oportunidades, que interessa estar no sítio certo à hora certa, que há que correr todos os buracos do país, independentemente das condições garantidas pelos mesmos, pois é assim que se consolida uma carreira.

Quando falamos de Rock e Metal, o cenário ainda é pior. Dizem que nem sequer há mercado. Dizem que o underground está morto, que a juventude não se interessa por concertos e que a velha guarda está fechada em casa a ver televisão. E perante tudo isto, muitos assumem uma atitude passiva, aceitando todo o género de cachets ou a ausência dos mesmos. Alguns chegam ao ridículo de pagar pelas “oportunidades”, porque consta que agora é assim, que há sempre alguém a aproveitar-se disso, e mais vale sermos nós que outros. Nem entro pelo universo dos covers, porque esse é digno de todo um outro artigo.

Damos por nós na segunda década do século vinte e um num retrocesso cultural, talvez iludidos pelas glórias de bom viver musical dos artistas da praça pública dos últimos trinta anos do século passado. Talvez esperássemos que a evolução fosse contínua, que a programação de espaços privados e públicos melhorasse consideravelmente, que houvesse brio e vontade de educar o povo num processo contínuo e árduo, mas todos sucumbiram lentamente ao facilitismo e ao “coitadinhismo”, à pequenez de achar que não se pode arriscar para além daquilo que as pessoas conhecem, fomentando continuamente a iliteracia musical, comprando pacotes de espectáculos a agentes que vendem o seu peixe ao preço de marisco, criando assim um ciclo vicioso de mais do mesmo.

Um artista inicia a sua actividade, dá alguns concertos de borla para se dar a conhecer, depois começa a receber cachets baixos, com os quais grava e edita uma maquete. Os cachets sobem caso se torne mais conhecido, mas os agentes continuam a não estar interessados pois não há fluxo económico visível para explorar e não lhes interessa a aposta mas sim a garantia.

Se o artista pretende então avançar para outro patamar, tem de abrir os cordões à bolsa. Paga por marketing, por publishing, por agenciamento, para estar nos melhores festivais, para garantir airplay nas rádios, e só assim se consegue chegar aos ouvidos de quem já não espera novidades. A partir daí, o caminho está facilitado, desde que continue a haver dinheiro para fomentar esse ciclo vicioso e elitista. Na prática, um artista continua a ter de fazer parte de uma elite, ao mesmo tempo que o disfarçar no discurso, fingindo ou enganando-se a si próprio, dizendo que subiu na carreira a tocar em todo o lado e que aos poucos foi cativando público.

O ciclo mantém-se, e enquanto assim for, os músicos continuarão a ser petingas à mercê das bocas esfomeadas de robalos, polvos, trutas e tubarões.

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