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Paus – Clarão

Desde a sua concepção que os PAUS, supergrupo português constituído por elementos dos Linda Martini, Vicious 5 e If Lucy Fell têm sido os protegidos intocáveis do rock alternativo português devido às suas visões mais experimentais e abordagens radicais a uma sonoridade que oscila entre o exótico e o musculado, sendo muitas vezes praticamente “levados em ombros” pela imprensa, independentemente do seu maior ou menor mérito próprio (que existe, só não é tão imenso como é reportado).

Depois de um primeiro cd bem acolhido em que exploravam mais os seus “truques” psicadelicamente tropicais, em Clarão a banda doseia mais a sua faceta tribal alimentada pela bateria siamesa de Joaquim Albergaria e Hélio Morais com um lado puramente rock, mais carregado de distorção e agressividade, mesmo quando estas se vestem com tons electrónicos.

“Bandeira Branca” foi o single de apresentação do álbum e é um dos momentos mais inspirados do mesmo, combinando ritmos de percussão tropicais com sintetizadores encorpados e vozes (contrariamente ao normal da banda) límpidas e sem coros inconsequentes.

Se as letras e a parte vocal não causam grande mossa, também não são os protagonistas do som dos PAUS, que se preocupam sobretudo em traçar as suas complexas melodias de toque Electrorock com grande cuidado e pormenor, dando origem a momentos épicos como “Nó” ou “Cauda Turca”, sem esquecer o “piscar de olhos” aos elementos progressivos de “Cume” e da belíssima instrumental “Ambiente de Trabalho”.

Além disto, o lado mais brutal dos PAUS emerge em faixas como a incendiária “Pontimola” ou a etérea “Cume”, dando a mostrar as raízes dos elementos da banda, todos originários de bandas com o rock puro na mira, facto ainda mais provado na apropriadamente intitulada “Negro”.

Encerrando o álbum com a densa mas cativante faixa homónima, os PAUS conseguem cometer a proeza de ter um álbum sem faixas fracas, mas em que também é raro encontrar momentos inesquecíveis, devido a um desejo de, posto de forma simples, “complicar” de forma a justificar a reputação que mantêm de forma intocável pela sua experimentação e que é motivo para em praticamente todas as músicas existirem momentos mais aborrecidos que desencorajam a continuação.

Desta forma, embora o registo seja mais frontal que o seu predecessor, Clarão mostra-se um cd mais intricado e que precisa de audições repetidas para começar a desabrochar, revelando no entanto uma mistura de sons cativante e merecedora de elogios, embora não deixe de soar por vezes a um produto demasiado preocupado em fugir a rótulos para simplesmente criar uma música capaz de nos arrebatar.

Análise de Jorge Martins