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Paus [Setembro 2012]

Depois de a chuva ter, a título definitivo, abandonado Paredes de Coura, e enquanto os Team Me animavam o fim de tarde no Palco Vodafone FM, a Rock N’ Heavy encontrou Joaquim Albergaria, baterista dos PAUS, e não o deixou ir embora sem antes trocar umas palavras.

Quim apresenta já um passado reconhecido pelo Rock. Dispensa, portanto, apresentações. Depois de Caveira e os The Vicious Five, os PAUS triunfam com um baterista cuja música lhe está no sangue.

Enquanto baterista dos PAUS, o que é que te move? Os PAUS surgem de uma ideia simples de fazer música com a bateria siamesa. O que me moveu a querer fazer isso foi tocar com alguns dos músicos que eu mais admirava na cena portuguesa: com o Shela, com o Makoto e com o Hélio. Eram os músicos que mais arrepios me davam. Tocavam bem, completamente entregues e de uma generosidade absoluta testemunhar o que eles faziam juntos ao vivo. Por inveja, queria fazer parte disso mas queria também oferecer-lhes qualquer coisa que eles nunca tivessem feito. É a principal motivação dos PAUS, falo por mim e acho que falo por eles também, alcançarmos lugares estranhos, sítios onde nunca tivéssemos estado. Musicalmente acho que fazemos isso e há muitos lugares estranhos que ainda não estivemos e ainda vamos estar. É isto que move os PAUS.

Foi isso que te fez mudar dos Vicious Five para os PAUS? Não. Não foi uma opção A ou B. Não foi carne ou peixe. Não foi uma escolha de menu. Os Vicious Five tiveram o seu tempo, tiveram a sua história. Coincidiu, na altura, que a história dos Vicious Five terminasse por ali e nessa altura estava a começar a história dos PAUS.

Achas que a amizade entre vocês é um factor que te ajuda? Há bandas que funcionam bem sem isso. É brutal. Para mim é indispensável fazer bandas com pessoas que eu não tenha uma química à partida ou que não saiba que podemos ser grandes amigos.

Como é que foi o concerto de ontem? O tempo influenciou? Estavas à espera de mais pessoal? Eu acho que o concerto de ontem foi um dos melhores concertos que nós já demos alguma vez.

A sério? É que eu já vos vi no Milhões e aquilo foi poderoso. Resultou muito bem! Eu acho que no Milhões foi mais vontade do público do que realmente aquilo que nós fizemos. Acho que tocamos bastante abaixo daquilo que poderíamos ter tocado.

Mesmo assim acho que teve um grande impacto. Acho que foi especial. O EP tinha acabado de sair, havia bastante gente curiosa e era surpresa para muita gente aquilo que estávamos a fazer.

Mas mesmo depois quando eu te vi no Anfiteatro de Leiria, eu achei que vocês aí conseguiram mesmo mostrar a vossa cena. A maravilha das opiniões é que nem sempre são concordantes e a música faz-se de notas não concordantes. Dá para fazer acordes com notas que à partida não estariam juntas. Eu discordo de ti. Acho que o concerto de ontem foi mesmo muito muito bom, da nossa parte, daquilo que fizemos tecnicamente, emocionalmente, espiritualmente, e ajudou, obviamente, que o público tivesse com tanta vontade e entusiasmo.

Eu fico com pena que vocês já não toquem a “Salsa Galáctica”. Eu adorava aquela música. Pode ser que tenham uma surpresa daqui a pouco tempo.

E a homenagem à Rihanna ontem? Foi mais uma homenagem às pessoas que não quiseram saber da chuva e se mantiveram fiéis ao amor pela música e ao amor por Paredes de Coura.

Tu tentaste aquela música brasileira mas a malta não aderiu… Eu senti-me muito velho aí (risos). Cantei Leandro & Leonardo “Temporal de Amor”, mas só para aí três pessoas é que reconheceram. Bastou cantar um segundo da Rihanna para pôr toda a gente a cantar.

É o pop! (risos) Eu acho que é a idade.

Também és fã da Rihanna? Sou. Mas sou muito mais fã da Beyoncé. A Rihanna não faz as suas músicas, a Beyoncé faz. É muito melhor música, performance, intérprete.

Nesta edição do Paredes de Coura, comemoram-se os 20 anos. O que tens a dizer sobre o cartaz? Há bastantes bandas portuguesas ou mais bandas portuguesas, se calhar. Eu acho que, para já, é sintomático da saúde e confiança que a música portuguesa tem hoje em dia. Tens pessoas a trabalhar muito bem. Nem vou dar aquele argumento dado, que a qualidade e a produção nacional está agora a ombrear com o internacional. Não. Estamos a fazer aquilo que temos de fazer em Portugal, em português, ou noutra língua qualquer.

Acho que desde os anos 80 não havia tantas vozes únicas em Portugal e por isso acho que é mais do que justo que o cartaz tenha tanta gente boa. Falo do B Fachada, falo dos Salto. Fiquei surpreendido com os Brass Wires Orchestra. São miúdos novos que ainda têm caminho de personalidade para percorrer mas que já deram um excelente primeiro passo. Há muita coisa boa a acontecer. São 20 anos de história. Um festival que começou com as primeiras 6 edições praticamente só com música portuguesa.

Acho que no princípio tinha nomes como Rui Veloso, Pedro Abrunhosa… Tinhas muitas coisas. Para mim este cartaz está óptimo no sentido de cumprir a missão principal de um cartaz de um festival de música: mostrar música nova e inédita a quem quer conhecer música. Por exemplo, o dia de ontem, tirando os PAUS, foi tudo estreias nacionais. Bandas que nunca tinham tocado em Portugal. Hoje no palco Vodafone FM, até agora, é exactamente a mesma coisa.

Ontem gostei muito do concerto do B Fachada. Viste? Acho que não foi dos melhores concertos dele, tenho de discordar.

E o que é que achas desta nova geração de músicos, como o B Fachada, que têm aparecido por aí? Acho maravilhoso. E, atenção, sou super fã do B Fachada. Comecei como antagonista dele, mesmo, a não gostar dele. E depois, disco a disco, ele foi mostrando que eu estava completamente errado e hoje em dia assumo-me como um fã acérrimo e acredito que ele é um exemplo importantíssimo do que o acreditar e ter confiança na tua voz pode fazer. Em 6 anos, ele produziu mais do que qualquer outro grande cantor.

Foram dois ou três discos por ano, não? Sim. Foi por aí. Mas independentemente da quantidade de produção, tem a ver com o espaço na história que ele já garantiu.

Ele consegue renovar ao longo do tempo, não achas? Eu acho que ele não se vai renovando. Vai acrescentando. A matriz continua a ser a mesma. A métrica que ele vai apurando vem do mesmo sítio. Os tons e a palete de cores que ele vai utilizando vêm do mesmo sítio. O que vai mudando são as temáticas, as texturas e ambientes que ele vai conseguindo recriar.

Ele está a saber a adaptar-se. Ele não se está a adaptar. Ele está a obrigar-nos a adaptar. É a marca de um verdadeiro artista com uma personalidade muito muito forte.

Dado o vosso estilo musical, acredito que nos vossos concertos aparecem pessoas amantes de diversos estilos. Achas que a música é a melhor forma de unir as pessoas? Definitivamente! Eu acredito que a música é a língua franca que fala a toda a gente quando a língua não é a mesma. Se partir de uma intenção de honestidade e de expressão daquilo que tu és verdadeiramente, pode não tocar a muitos, pode tocar a muitos, mas se for honesto, à partida, há-de chegar a alguém e essas pessoas vão estar unidas, quem a faz e quem a ouve. E é a música que consegue fazer isso. É, das artes, a mais pura e a mais universal, definitivamente.

Quais foram os músicos que mais te tocaram até hoje? Aquele disco que mudou a forma de veres as coisas, a forma de veres a música. Muitos! Em muitas situações, momentos diferentes, houve discos que me ajudaram muito. Tantos que nem te sei dizer… Mas se tivesse que escolher um disco muito importante para mim ou que me ajudou a fazer as perguntas a mim próprio que eram necessárias ser feitas…

Importante para me ajudar a perceber o que é que um concerto deve fazer às pessoas e o nível de entrega que um músico deve ter num concerto, foi a primeira demo tape dos Sannyasin – “For those who crucify us” -banda que veio a seguir dos membros dos X-Acto. Foi da música mais intensa que, na altura certa, me fez perceber o que é que uma banda deve entregar ao vivo.

E o que é que uma banda deve entregar ao vivo? Tudo. Não deves ir para palco e fazer divisões do que é a vida do músico e o momento em que ele está em palco.

Mostras o que és em palco? Tem de ser.

Eu notei nas tuas homenagens ontem, aos amores perdidos… Isso foi um pedido que recebemos de um rapaz. A moça acabou com ele e ele continuava apaixonado por ela. Ele pediu para dedicar e eu achei bonito (risos).

E para terminar, quais são os planos dos PAUS para o futuro? Os PAUS estão agora a preparar um concerto no CCB, dia 26 de Outubro. Estamos a preparar muitas coisas bonitas para isso e, na verdade, é nisso que estamos focados. Vamos ainda ao Noites Ritual e vamos tocar num festival em Itália.

É um universo que gostavam de explorar? Nós queremos é tocar, ver sítios novos e comer comidas que nunca tivéssemos comido antes.