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Skypho – Same Old Sin

Agora que nos encontramos no dealbar de 2012, e para começarmos o ano da melhor forma, as palavras que escrevemos incidem no trabalho de uma das bandas mais fascinantes do panorama atual da música alternativa nacional. Há mais de uma década nas lides musicais e depois de gravarem a demo “Hidden Faces” e o EP “Nowhere Neverland”, os SKYPHO (do grego skiphoi) lançaram , em outubro de 2011, o álbum “Same Old Sin”.

Banda que se define através da pluralidade sónica e pela mistura eclética de estilos e se autocaracteriza como iconoclasta, procurando criar objetos artísticos que agradem ao gosto pessoal e que não estejam circunscritos a géneros ou etiquetas – assim são os SKYPHO. Em “Same Old Sin” deparamos com uma componente lírica que retrata a sociedade em que vivemos e a forma como interagimos com os outros. Simbolizando esta interação e a influência sobre o outro, a capa do álbum retrata a dádiva da maçã – a génese de todo o pecado – até porque é acerca do tema do “pecado” que nos falam os SKYPHO.

Assim, depois de um longo período de maturação, a banda oferece-nos esta “maçã” da cor do pecado, levando-nos a cair na tentação de a degustarmos, saboreando toda a riqueza de texturas que se esconde no seu interior. Aberta a caixa de pandora, a intro instrumental, “S. D. S.”, instala-nos no universo dos SKYPHO. De seguida, somos arrebatados por “Sleeping In The Monster’s Bed”, um tema que combina melodia, virtuosismo, eletricidade e guturais a roçar a fronteira do death metal.

O próximo tema, “A Última Caminhada”, convoca a língua de Camões e depois de um início mais melódico, que prescinde do gutural, incrementa a velocidade e dinamismo heavy através de riffs carregados de eletricidade e de um registo muito assertivo na voz. “My insomnia” abre com a preciosidade étnica proporcionada por Osga no didgeridoo, sendo que o tema se desenvolve em alta rotação, mesmo mantendo-se o registo alicerçado em ritmos de fusão e envolto numa aura tribal.

“My Insomnia” e “Your Love, My Cage, My Prison, My Rage” compõem os núcleos deste sistema bipolar. Neste tema, o tom é de revolta e encontramos um manifesto feroz da atitude panfletária e empenhada da banda, funcionando a canção como uma sinopse da riqueza musical deste projeto, visto que aqui encontramos uma grande diversidade dos elementos que constituem o som dos SKYPHO.

Depois de evocadas algumas ressonâncias orientais em “Spirit”, escutamos “Nowhere neverland”, um dos temas mais melódicos do álbum, e que demonstra cabalmente como a banda consegue abarcar os registos mais díspares, mantendo sempre a toada alternativa, mesmo enquanto passeia pelas fronteiras do “mainstream”. A percussão tribal marca o início de “Demons’ Party”, tema que intercala o gutural e o registo limpo de forma magistral. Toda a energia do metal de vocação híbrida ou “crossover” explode neste tema arrebatador. “Darkness of the soul” explora novamente a arte de digladiar vocalizações díspares, mantendo o foco na eletricidade e nos níveis de distorção. No capítulo final do álbum, há ainda tempo para um intrépido “My Last Words”, para a beleza singela e cosmogónica de “Re_nasce”, potenciada pelo sabor das palavras em português que conferem novas tonalidades líricas à música dos SKYPHO, não esquecendo também a aura muito worldmusic do tema. “Jungle Syndrome” é o expoente da singularidade deste universo. Para este tema, os SKYPHO convidaram a escola de samba Unidos da Vila e o resultado é algo sui generis nos cânones do metal nacional.

Apesar de algumas bandas de metal brasileiras ultilizarem elementos do samba e de outros ritmos oriundos de terras de vera cruz, não é comum encontrar este conceito de tropicalidade numa banda europeia. O epílogo fica reservado para a beleza singela e diáfana de “White Bird”, uma balada que oferece um dueto entre Carlos Tavares e Diana Costa, proporcionando um desfecho delicodoce.

Com “Same Old Sin” a banda de Albergaria-A-Velha afirma-se como um valor consumado do metal nacional, logo, pela qualidade deste trabalho, com o devido reconhecimento e os necessários apoios, este projeto tem todas as condições para singrar até mesmo em termos internacionais. No entanto, será sempre necessário que o público português preencha o papel destinado às organizações e às empresas, cabendo-lhe auxiliar este e outros projetos, dando primazia ao que é bom e é nosso, em detrimento das importações requentadas e recauchutadas que abundam nos escaparates e nos principais palcos nacionais.

Texto por Rui Carneiro