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SonicBlast Moledo 2015 [Dia, 1]

Disse Raul Brandão, no seu célebre livro, “Os Pescadores”, sobre Caminha:

“Caminha esta manhã é um sonho doirado que – tenho medo – se vai esvair na atmosfera. O rio azul, o grande monete fronteiriço, a água, o céu, não têm existência real. Sobre o esplêndido panorama diáfano e azul, sobre o cone imenso e compacto de Santa Tecla, sobre a povoação de Campozados, sobre os pinheirais verdes e os campos verdes, sobre a água que não bole, passou agora mesmo um pincel milhado em tinta acabada de fazer. A vila de ruas lajeadas e a igreja de pedra roída pelo ar salgado, com a Galiza em frente e o fio branco de espuma lá para a barra, parece adormecida e encantada. Deviam-na deixar morrer intacta, sem lhe deitarem as muralhas abaixo, envolta no doirado que a traz entontecida.”

Assim nos sentimos hoje, ao acordar, em relação a Moledo do Minho, mesmo a poucos quilómetros da vila tão bem descrita por Brandão. Um acordar que, imediatamente, se deleita no fruir das memórias, ainda frescas, da experiência que a 5ª edição do SonicBlast Moledo proporcionou. Memórias que tão cedo não deixarão a mente dos amantes de música que marcaram presença neste belo pedaço de terra, “Os Festivaleiros” como “Os Pescadores”.


Moledo é igualmente um sonho, uma fuga ao que os sentidos estão habituados no dia-a-dia. Prima pelo seu lado natural verdejante e o azul rutilante do mar, cujo forte da Senhora da Ínsua presente no seu leito lhe confere os atributos para o tornar único e suscitar o interesse dos mais curiosos. Com o monte de Santa Tecla no horizonte, é cenário digno do tal “pincel milhado” o retratar numa tela, para que os nossos olhos possam acompanhar a beleza infinita que abraça Moledo, quando quiserem.

A chegada ao campismo e o aquecimento…

Este ano, pela primeira vez, o interlúdio antecipou-se com uma festa de aquecimento, no dia 13, realizada num dos locais que há mais tempo permanece em Moledo, junto à praia: Bar Ruivo’s. Depois das tendas montadas e mochilas arrumadas, tendo como horizonte o mar, a poucos metros, e o monte de Santa Tecla num desviar do olhar para a direita, a noite foi, então, aquecendo com os Astrodome, Galatic Superlords e The Dead Academy.

Chegamos apenas para Astrodome, porém a tempo de ver a esplanada cheia, sentir a união ibérica, entre risos, conversas e o copo na mão que acompanhava o movimento corporal dos festivaleiros, como um só. Uma noite que encheu o peito de satisfação. Foi o começo da fuga extasiante do dia-a-dia, com uma paisagem, cheiro e som conspícuos, que não menos fazem do que apelar ao lado observador e inspirador.


Prelúdio

Espaço verdejante, característico do Minho, envolto nas montanhas que gritavam silenciosamente pelo começo do festival. Com as várias barracas de comes e bebes montadas, a piscina reluzente e os dois palcos prontos, a chegada dos festivaleiros reuniu todas as condições necessárias para que o voto secreto da natureza (e nosso) fosse atendido.

Os primeiros a inaugurar o palco da piscina foram os portugueses Mantra, seguindo-se os The Black Wizards. A boa surpresa veio em terceiro lugar com os Big Red Panda que deixaram o público mais solto e manifestante, com o seu EP de estreia homónimo e o single “High Ride”, prólogo do próximo trabalho do grupo. Terminaram com “Miles Davis”, dando luz verde ao que se seguia.




Interlúdio

O lema do SonicBlast manteve-se, “Sun, sea, beach, pool, surf, skate and lots of cool bands”, excepto a parte do sol. O nevoeiro envolto nos montes já escondia o verde que os representa e previa a chegada de aguaceiros; previsão confirmada no concerto dos nossos vizinhos The Attack Of The Brain Eaters. Mas quando a causa é realmente forte (a música), não há chuva que afaste os que genuinamente a admiram. A varanda e os recantos abrigados foram enchendo, mas, à falta de espaço para todos, houve quem resistisse e mesmo quem preferisse continuar na piscina; esses, poucos, faziam valer a sua presença, de mergulho em mergulho, enquanto o stoner rock dos espanhóis ganhava forma.


De Pontevedra, chegaram os Cuchillo de Fuego e demoveram, por momentos, os chuviscos que, até então, se faziam sentir. Apresentaram um som coeso e vibrante, no entanto o singular vocalista representou em demasia, fazendo a sua actuação soar a exagero. Ainda assim, conseguiu que o público se aproximasse do palco, tendo ele próprio retribuído, ao descer para o espaço verde que foi proporcionando o conforto durante a tarde. Houve tempo para experimentar uma música, pela primeira vez, fora de Espanha, assim como explicar como é a sua cidade de origem, através de outra.


Com a missão de encerrar o palco da piscina, os Nervous trouxeram o seu hardcore e, simultaneamente, um som distinto daquele que se tinha ecoado pelo Centro Cultural até ao momento, sendo de salientar a distribuição de cassetes por parte do vocalista, antes do concerto começar.


Sobre Moledo e a “Polónia”, o “roxo profundo”

Os High Fighter fizeram as honras do palco principal, com uma actuação entusiasmante do seu EP “The Goat Ritual”. Seguiram-se os polacos Belzebong que, pelo contrário, ficaram um pouco aquém do esperado, embora tenham dado um bom concerto. Sobre eles, um céu profundamente roxo, que fazia o contraste perfeito com as luzes verdes do palco, proveu as condições naturais e cenário ideais para o stoner cru e denso que lhes é característico fluir. Especialmente reservados, a interacção com o público passou apenas pelo levantar dos polegares e uma fotografia tirada ao público pelo guitarrista, com o seu telemóvel. Apesar de terem transparecido repetitivos nalguns momentos, fizeram jus à sua essência de peso e doom. Foram minutos de “Sonic Scapes & Weedy Grooves.”, literalmente.


O trio arrebatador: entre eles, dança, suor e destruição

A expectativa e vontade de receber o que se seguia foram crescentes a cada momento de espera. Chegados da cidade Invicta, Gon (voz), Kinorm (bateria) e Miguel Azevedo (guitarra) formam, por certo, o trio mais explosivo de que o Porto e Moledo terão memória. Dito isto, a felicidade do retorno, não só enquanto banda como ao SonicBlast, foi imensa, por parte dos fiéis admiradores. Gon marcou o início nos bombos e o que se seguiu foi algo surreal; o corpo e alma tinham sido invadidos, não havia nada a fazer senão deixar os Plus Ultra acontecer. A começar na dança mais sensual de Gon e a igual habilidade de Miguel Azevedo, no defender com as baquetas, como se fosse uma luta, dos riffs poderosíssimos de Miguel, a destruição e descarga enérgica, quer física quer mental, foi total. Fizeram-se ouvir os clássicos, como “Soon”, mas ninguém teve medo: público intrépido, de braços abertos e levantados, acolheu Gon no crowd surfing e levou-o intacto para o palco. “Scream”, a música lançada recentemente com um videoclip em que Gon, Kinorm e Miguel aparecem três vezes, foi evidenciada pelo vocalista e retractou, em pleno, o sangue novo que lhes corre nas veias. “Trust is for the weak”, outro “clássico”, tornou o último momento inolvidável.


Banda hirsuta é banda explosiva

Directamente de um dos mais belos países nórdicos, chegou a vez dos suecos Greenleaf darem ares da sua magnificência. Provavelmente, foram a grande surpresa desta primeira noite de viagens sonoras. A começar pelas palavras de Arvid Jonsson (vocalista) em relação a Bengt Bäcke (baixista): “Digam Olá ao Bengt, ele não vos pode ver, mas pode ouvir-vos”. Um momento bonito que apanhou alguns de surpresa. Com um vocalista bastante expressivo, os Greenleaf deram um concerto explosivo, o que foi proporcionado, sobretudo, pelos temas mais antigos. Não obstante, o último álbum “Trails & Passes”, proveu uma exteriorização igualmente vigorosa, com “Ocean Deep”, “The Drum”, “Equators” ou “With Eyes Wide Open”, na qual, em parte, apenas se fez ouvir com mais precisão o alcance da voz de Arvid. Os suecos trouxeram a magia nórdica e alcançaram o coração do norte de Portugal.


Revisitação à ode alemã

Após deixada a promessa de regresso no ar, um ano depois, esta foi cumprida: os My Sleeping Karma voltaram a Moledo. O mesmo palco, uma viagem que trespassou o nume. Madrid, invejoso, provavelmente, reteu os instrumentos da banda no aeroporto, mas os High Fighter e os Wight permitiram que um dos melhores concertos, senão o melhor, do primeiro dia acontecesse, ao emprestarem o que Matte, Seppi, Norman e Steffen precisavam para ecoar na noite límpida e rutilante a magia pura que sempre lhes emana do coração e chega directamente ao nosso. Antes do começo propriamente dito, um abraço entre os quatro músicos no palco marcou a união entre os mesmos e acentuou a vontade de proporcionarem algo realmente genuíno e cúmplice, como sempre o fazem.

A música dos My Sleeping Karma é sempre um ditirambo. Chega-nos do interior, do nosso e do deles, desde o álbum homónimo até “Moksha”, o qual, lançado no presente ano, vieram apresentar, com a introdução do teclado, como ficou marcado com “Prithvi” e “Moksha”. Com a simpatia que já lhes é inerente, aproveitaram todos os momentos para demonstrarem a gratidão sentida por voltarem a tocar numa das mais belas zonas de Portugal. A viagem pelo universo do transcendente também teve como paragens os anteriores trabalhos da banda, não tendo faltado uma “Ephedra”, “Satya”, “Ahimsa” ou “Brahama”, para evocar ao céu a dimensão do poder hipnotizante que os alemães possuem. Foi um concerto inebriante. Ficamos, definitivamente, a contar com uma próxima vez, e que seja célere.


Fotografia: João Fitas | Texto: Cristina Costa
Agradecimentos: SonicBlast Moledo