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SubRosa – More Constant Than The Gods

A cada novo lançamento, a música dos stoners/sludgers de Salt Lake City, SubRosa, entranha-se pelos interstícios da minha epiderme invadindo-me capilarmente até ao mais profundo reduto do meu ser.

Foi assim em 2011, quando apontei No Help for the Mighty Ones como um dos melhores álbuns desse ano e agora, em 2013, sucede o mesmo com o novo More Constant than the Gods, indiscutivelmente o melhor lançamento do ano no âmbito do experimental, melodic stoner/sludge metal (com violinos à mistura, visto que para este registo a banda conta com Sarah Pendleton além da violinista oficial, Kim Pack).

De facto, a expressão latina “subrosa” resume na perfeição o hermético sentimento de inquietude mística e secretismo que deslumbra e convida, antiteticamente, ao recolhimento espiritual e à epifania catártica das emoções.

More Constant than the Gods oferece 67 minutos de fruição “doom & gloom”. Com efeito, a eloquente e magistral “The Usher”, na sua ambivalência entre os princípios masculino e feminino, (em que o feminino sairá inevitavelmente triunfante, até porque a banda conta com três vocalistas do sexo feminino) alcança plenipotenciariamente o estatuto de melhor música de 2013, na minha humilde opinião. A tensão lírica é avassaladora desde os versos iniciais:

You’re more constant than the stars
Because the change their paths with the seasons
You’re more constant than the Moon
Because she hides her face in the shadows
You’re more constant than the sun
Because one day her embrace will melt the earth
You’re more constant than the gods
Because sometimes when we call, they don’t answer at all

“The Usher” é simbolicamente o guardião daquilo que está para lá dos limites do real e do conhecido, o mestre dos segredos e nele reside, em parte, a explicação para o título do álbum.

Todos sabemos o risco presente quando o tema de abertura de um álbum nos deixa exultantes. Na maioria dos casos a partir daí é sempre a descer! No entanto, isso não acontece neste caso. “Ghosts Of A Dead Empire” acrescenta uma dose reforçada de riffs pesados com afinações sludge e a cadência mantém-se cativante e obscura, sendo que o simbolismo esotérico e místico das letras será também ele constante ao longo de todo o álbum, quase como se cada tema funcione como algo semelhante a um sortilégio cabalístico.

Musical e liricamente, “Cosey Mo” destaca-se no âmbito do doom veiculando ritmos e vocais particularmente opressivos e angustiantes. Aqui encontramos também alguns dos melhores versos do álbum, sendo que o subtil travo “funeral doom” encontra nestas palavras a sua feição mais explícita:

I promise you that I will find youI
‘ll dig up every unmarked grave
I will not rest until you darling, found you
And on your tomb I’ll carve your name

Por esta altura, o ouvinte começa a duvidar da veracidade da minha premissa inicial e pode começar a sentir a natural melancolia que este estilo musical propicia.Mas quando aceitamos a boleia de Caronte, devemos estar preparados para uma morosa viagem ao longo das águas estagnadas do Estige. O mesmo acontece perante um álbum que desafia o imediatismo e enaltece a contemplação narcísica e escatológica em detrimento do fugaz e do efémero. Assim sendo, a nefelibata e intrincada “Fat Of The Ram” pode apresentar-se como um desafio, no entanto, vale bem a pena esperar pelos minutos finais, quando ela explode numa verdadeira diatribe de violinos e riffs de guitarra.

Ao ouvirmos “Affliction” saboreamos o facto de a perseverança ter triunfado sobre a alienação, até porque estamos perante um dos momentos mais intensamente emocionais do álbum, até porque o tema é baseado num caso real: “The Trolley Square shooting”, ocorrido em Salt Lake City, quando Sulejman Talović abateu a tiro cinco transeuntes, entre os quais Kirsten Hinckley (15 anos), sendo que a mã,e Carolyn Tuft, viu a filha morrer e foi em seguida alvejada nas costas a tiro de caçadeira. Sobreviveu, mas encontra-se actualmente às portas da morte vítima de envenenamento por chumbo. Facto que, quando conhecemos a história oculta na letra, potencia ainda mais o seu alcance emotivo.

Para epílogo os SubRosa reservaram uma filigrana musical, a balada “No Safe Harbor”. Delicada desde o intróito ao piano acompanhado pela flauta e vocais delicodoces, esta canção exprime bem a natureza subtil que caracteriza a música da banda.

No universo do heavy metal, profundamente vinculado ao domínio do princípio masculino, são bandas como os SubRosa que se destacam da multidão amorfa e inconsequente, porque a música que fazem é, não só, profundamente original, mas também representativa de uma identidade madura e singular que explora o metal a partir de uma perspectiva verdadeiramente única e mais feminina, facto evidente no uso recorrente do símbolo da terra (o triângulo invertido intersectado por uma linha), representação alquímica do princípio feminino e uma referência implícita à Deusa-mãe.

Assim sendo, resta dizer que More Constant Than The Gods deve constar de um selecto cardápio musical para audição atenta e recorrente neste ano de 2013.

Análise de Rui Carneiro