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SWR Barroselas Metalfest | Dia 3

Se há um trio que encarna na perfeição o espírito DIY do grind nos tempos atuais, essa banda é em definitivo Rato Raro. A resiliência e perseverança com que contornam cada obstáculo na sua carreira com quase um quarto de século e a forma muito própria como encaram a forma de vida underground concedes-lhe desde logo uma vasta legião de admiradores. Os habituais contos macabros sobre alcoolismo, drogas e situações de rotina diária pincelados ocasionalmente por algum gore, são distribuídos em blocos de Grind/Death/Punk diretos e para consumo imediato.

Os luso belgas Marginal, dos quais fazem parte, entre outros velhos conhecidos do SWR Fest, Johan Antonissen dos saudosos Suhrim, aproveitaram a sua vinda a Portugal para apresentar em primeira mão “Chaos and Anarchy” e a sujidade obscura do Crust Thrash Punk nele contido.

A alguns anos luz do carisma que já começavam a granjear no passado, os Midnight Priest perderam sem dúvida na originalidade quando se subjugaram ao uso da língua inglesa, e se isso parece um mero detalhe o que é certo é que mesmo o último álbum está um pouco aquém das propostas anteriores. Se em palco a performance musical vai disfarçando esse aparente passo em falso, o frontman não nos permite esquecer a nostalgia das atuações do passado.

Estreia aparente da nova formação de R.D.B. ao vivo, ficando agora as 6 cordas a cargo de Espiga (Extreme Retaliation) e com o baterista João a fazer também uma perninha nas backing vocals. Iniciar um dos o palcos nunca é fácil e para uma banda grind torna-se notoriamente mais simples dominar as hostes em espaços ligeiramente mais exíguos e a horários mais tardios, contudo estes serranos não acusaram as adversidades e espalharam com a devoção que lhes é reconhecida o seu Death Grind de inspiração construtora.

Zatokrev acabados de lançar o novo “Silk, Spiders, Underwater” já são velhos conhecidos do público português. Neste momento torna-se fácil aperceber-mo-nos que as bandas representantes de estilos derivados de Doom/Death/Sludge assumem já números de maioria no cartaz da edição deste ano. Viagem mágica com alguns pontos notáveis à semelhança do que estes suíços já nos habituaram.

Circle Pits, Wall of Deaths e todos os demais condimentos a que um concerto de Death Thrash moderno tem direito não foram esquecidos pelos Benighted que como sempre demonstraram uma mestria singular na arte de fundir de forma homogénea Grind, Brutal Death, Death Metal e também alguns riffs mais modernos de Thrash sem no entanto soar a um sortido da Cuétara. Menção especial também para Julien Truchan que é um frontman de excelência.

Round 2, para Menthor atrás do kit de bateria, desta vez ao serviço dos históricos americanos Nightbringer. Competentes sem dúvida, mas ficou a sensação de terem ficado um pouco aquém do que seria expectável.

Se por um lado o som ruinoso do concerto de Impaled Nazarene (cortesia do próprio técnico de I.N.), condicionou em parte o impacto que a banda poderia ter causado, por outro também não me recordo de alguma vez os Impaled Nazerene terem usufruído de som muito melhor. Assim sendo os clássicos foram desfilando, sempre com um Mika Lutinnen (a.k.a. Slutti666) a desferir palavras de ordem certeiras que conseguiram facilmente surtir deleite e caos nos seguidores presentes.

É difícil haverem concertos perfeitos, se este não o foi, andou verdadeiramente perto disso. Esta passagem dos alemães Ahab por território nacional foi mágica desde o primeiro momento, transportando-nos por trilhos sonoros hipnotizantes ancorados no seu peculiar Funeral Doom de fascínio por motivos náuticos e de qualidade superior. A discografia foi percorrida inteligentemente tendo sido o destaque para o mais recente “The Giant”.

Se “Back to the front” não augurou nada de particularmente positivo, a estreia do “franchising” bastardo de Entombed em Portugal foi avassaladora. Se dúvidas existissem e preferências de denominações aparte, os Entombed A.D. dissiparam impiedosamente qualquer nuvem de cepticismo que pudesse ainda pairar, com golpes certeiros de O.S.D.M. clássico. Destaque especial para a energia singular de L.G. Petrov, que dá tudo de si em cada minuto da sua estadia em palco, como se o pagamento da renda do seu T1 em Estocolmo estivesse diretamente dependente disso. Para memória futura ficam momentos extraídos de álbuns históricos como “Clandestine”, “Wolverine Blues”e “Left Hand Path”.

Uma das bandas de referência da N.W.E.B.D.M. – New Wave of European Blackened Death Metal, os Lvcifyre não perdoaram quem aguardava ansiosamente para ver pela primeira vez a descarga lancinante e ritualista que lhes é reconhecida e para tal foram invocados temas dos dois álbuns “The Calling Depths” e “Sun Eater”, assumindo-se como um dos concertos do festival. Ah, o Menthor podia finalmente descansar, cumprida que estava a mais extrema tripla de bateria do festival.

Heavy/Speed Metal a rodos foi a proposta frenética dos canadianos Skull Fist, servida com base no último lançamento “Chasing the Dream” mas com recuos constantes ao anterior “Head of the Pack”. Temas como “Bad For Good”, “You’re Gonna Pay” e “No False Metal” são já clássicos precoces que fariam seguramente corar de inveja uns WASP.

Para o fecho de atividades da SWR Arena estavam programadas duas bandas que percorrem muitas das vezes um trilho comum na sua agenda ao vivo. Assim para o remate final tivemos o experimentalismo punk jazzy dos Cangarra nas suas habituais jams sem rede e Jibóia com a sua habitual conjugação de guitarra eléctrica, miríade de pedais de efeitos e órgão, com os quais se invoca uma fusão entre world music, rock e música electrónica.  Para o ano há mais!


Texto: Eva Martins
Fotografias: João Fitas e Ricardo Silva