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Tame Impala – Currents

Depois da obra-prima que foi Lonerism, em 2012, que veio revitalizar por completo o estado do Rock psicadélico actual sem descurar a sua veia semi-revivalista numa homenagem refrescante, todos nos questionámos quais seriam os próximos planos de Kevin Parker, multi-instrumentista e líder dos Tame Impala que se assume como one-man band em estúdio, tomando rédeas também do processo de produção e sempre caracterizado por um espírito perfeccionista que acabou por adiar o lançamento de Currents um par de meses.

Pois bem, o novo álbum na verdade acabou por chegar e pasmem-se os puristas da Psicadelia, não é igual a Lonerism, nem lá perto! O músico australiano assumiu que queria fazer um disco mais universal, pegar no seu espírito experimental e levá-lo até ao alcance das pistas de dança, algo que fez torcer o nariz de muitos fãs logo à partida, mas a verdade é que o génio de Parker continua sem desapontar e o novo álbum, mesmo sem chegar aos píncaros da pérola de 2012, é uma autêntica delícia.

“‘Cause I’m a Man”, primeiro single revelado, já mostrava uma radical mudança de estilo, com a sua quase ausência de guitarras e vibe de slow num baile de finalistas dos anos 80, assumia-se mais como um prazer culpado do que algo para ser levado a sério, uma diversão até que viesse a música a sério e ela realmente veio e impressionou, sem no entanto se diferenciar tanto desta faixa.

Marcado por uma imensidão de efeitos e sintetizadores em detrimento de guitarras carregadas de fuzzCurrents é um esforço hercúleo de Kevin Parker para devolver o Rock (?) Psicadélico à audiência universal e às discotecas e, embora isso dificilmente aconteça (clubes de dança são perigosamente alérgicos a música interessante, regra geral), louva-se o esforço do qual resultou um dos melhores discos do ano.

O importante a reter é que, mesmo abandonando em grande parte a guitarra, os Tame Impala continuam com o espírito certo, como se pode ver pelos teclados e voz carregada de reverb da fantástica trip que é “Reality In Motion” ou do absoluto tributo a clássicos como Bowie (que, de resto, ecoa muito por todo o CD) na glam “Yes I’m Changing”.

No entanto, à semelhança da transformação sentida pelos Black Keys o ano passado (que também se espelha em Currents), Parker não está disposto a abdicar de momentos mais rockeiros, movidos sobretudo pela força de riffs certeiros no baixo como na triunfante “The Less I Know The Better” e também dando asas ao seu experimentalismo sem barreiras, como na excelente final “New Person, Same Old Mistakes” que encerra o álbum com chave de ouro.

É verdade que há alguns momentos ao lado (os interlúdios são todos inconsequentes e “The Moment” soa a tributo glam banalizado), mas quando existe uma faixa magnífica como a sublime “Let It Happen”, é fácil fechar os olhos a esses defeitos menores.

Desta forma, Kevin Parker pegou na tarefa de suceder ao seminal Lonerism e re-inventou mais uma vez a sua visão do psicadelismo, largando as guitarras, pegando nos sintetizadores e deixando mais uma pedra basilar para o género no caminho.