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The Offspring – Days Go By

Muitos dias passaram, desde que, em 1984, Dexter Holland e Greg Kriesel saíram de um concerto de Social Distortion com o desejo de criar uma banda. Depois de, em 1989, terem lançado o álbum de estreia The Offspring, de facto, este é já o nono trabalho de longa duração de uma longa carreira musical. Fatalmente, o título escolhido expressa, de forma premonitória e sibilina, uma realidade irrefutável: a roda do tempo não cessa de girar e tudo aquilo que já atingiu a plenitude tende a cair em declínio.

Os primeiros temas de “Days Go By” ligam-se, semanticamente, a essa circunstância de tempo. Em “The Future is Now” canta-se: “They’re coming after me/ Flashback 1984/ Now who’s knock-knocking at your door?”, na verdade, há ao longo deste tema deambulações temporais direcionadas para sentimentos de frustração, desespero, depressão e fatalismo que culminam na aniquilação: “I’ll sink into the night/ And I’m turning off the lights/ Cause the future is here/ And this is how I disappear.”
O tema seguinte “Secrets From The Underground” é o contraponto enérgico, visto que depois da abulia inicial há aqui alguma da energia que recorda os Offspring de outros tempos: “Hey, no, no” I’m not good at going away/ I got something more to say/ Kick it, screaming, I knock you down, and knock you down”, no entanto, as palavras soam mais como um “pastiche” anárquico do que como um verdadeiro sentimento de revolta.
O homónimo “Days Go By” é o primeiro single e parece talhado para ser usado e abusado através das frequências da rádio. Esqueçam sonoridades alternativas, porque isto é música para ouvir a toda a hora e em todo o lugar – das filas dos autocarros às casas de banho dos centros comerciais. Liricamente, temos mais do mesmo, uma vã tentativa de não cair no abismo do esquecimento através de uma cíclica renovação: “Those days go by and we all start again/ What you had and what you lost / They’re all memories in the wind / Those days go by and we all start again”, todas estas palavras podem ser metaforicamente associadas ao infrutífero esforço de uma banda que procura reinventar-se musicalmente, mas sem abandonar os cânones que garantam o sucesso da comercialização.
Dexter Holland salva “Turning In To You”, conferindo-lhe algum dinamismo e diversidade. “Hurting as One” é uma aproximação à sonoridade mais convencional dos Offspring. Assemelhando-se a uma “Something To Believe In” ultrapasteurizada e aquecida no micro-ondas.
“Cruising California (Bumpin’ In My Trunk)” é um daqueles momentos em que todos os que continuam a ouvir o “Smash” devem fazer “fastforward”, porque este é um tema inconsequente, “non-sense” e dançável – ao estilo mardi gras. O mesmo movimento pode ser aplicado à delicodoce balada “All I Have Left Is You”.

Paradoxalmente, são os últimos temas de “Days Go By” que acabam por, em certa medida, abrilhantar o álbum. “Oc Guns” vai despertar sentimentos antagónicos entre os fãs, mas a forma como combina ritmos tropicais com sonoridades que parecem saídas de “El Mariachi”, acaba por conferir aquela nota de singularidade que não produzira efeitos em “Cruising California.”
A operação cosmética efetuada em “Dirty Magic” (Ignition,1992) confere uma áurea de nostalgia a este momento e envolve-o nessa magia única dos inícios da década de noventa. “I Wanna Secret Family (With You)” é o tema menos forte deste final, garantindo, no entanto, uma intensa prestação vocal de Holland apoiada por riffs simples e diretos. “Dividing by Zero” é o tema mais apelativo do álbum. A fricção elétrica inicial indicia o cataclismo de velocidade e energia que a banda incutirá ao longo da música. Na verdade, este será, provavelmente, um dos temas mais fiéis há identidade da banda, até porque encontramos aqui alguma daquela virulência adocicada caraterística dos primeiros tempos dos Offspring.
“Slim Pickens Does The Right Thing And Rides The Bomb To Hell” encerra o álbum com a sua toada punk/rock, guitarras recorrentes, muita distorção e a ocasional imprecação obscena, lembrando-nos que, apesar do início titubeante, este é um álbum de Offspring: “Dance fucker Dance, let the motherfucker burn! -hey!” Concluindo, aqui está um trabalho que o produtor Bob Rock (Metallica, Aerosmith) não conseguiu desvirtuar completamente do seu cariz alternativo, ainda que não tenha ficado longe de exacerbar a faceta mais convencional e comercial da banda.

Texto por Rui Carneiro