free website stats program

Thirty Seconds To Mars – Love Lust Faith + Dreams

O que não falta na história são artistas de um determinado ramo que, por razões de curiosidade, talento, ou monetárias, têm experiências noutro ramo artístico que não o original, geralmente sem sucesso. Assim sendo, o que não falta por aí são músicos que decidiram ser actores, ou vice-versa, mas a maioria passa relativamente despercebida no ramo em que se decide aventurar, sem normalmente deixar um marco particularmente impressionante.

No entanto, claro que para um regra, tem de haver sempre uma excepção e uma bastante evidente é Jared Leto, actor que se começou a evidenciar no final dos anos 90, com prestações excelentes em filmes como Fight Club ou Requiem for a Dream e que, em meados dos 00, decidiu criar esta aventura musical chamada 30 Seconds to Mars (30STM), onde canta e dá conta da guitarra.

Depois de um início claramente apegado ao rock alternativo, do qual saíram dois álbuns promissores, a banda de Leto decidiu entregar-se a um som de toada mais experimental e épica em This is War, para grande sucesso comercial, mas pouco consenso crítico.

Neste novo registo, já se adivinhava o mesmo caminho, pois o próprio vocalista disse que “cada álbum deve ser um passo em frente, sem repetir a sonoridade” e, realmente, é mesmo isso que se verifica em Love Lust Faith + Dreams.

Em primeiro lugar, apesar de vir rotulado de disco conceptual, essa noção é completamente irrelevante, pois não há qualquer “todo” a unir as várias músicas deste cd, que teoricamente é dividido em quatro partes, com cada uma a ser dedicada a uma das palavras do título do disco, anunciada por uma voz feminina; no entanto, as músicas sucedem-se com naturalidade, mas sem nenhum fio condutor, daí que este rótulo seja completamente despropositado.

Embora tal já fosse previsível, continua a ser questionável se esta nova “roupagem” assenta bem aos 30STM, quando já começavam a dar cartas no terreno do rock alternativo e não conseguiram criar nada de tão memorável em This is War.

Aqui, o início parece anunciar algo melhor, com “Birth” a começar o cd de forma genial, numa brilhante orquestração e mistura de sonoridades orquestrais, electrónicas e rockeiras.

Nos singles já lançados, “Conquistador” e “Up in the Air” (o tal que foi para o espaço), a fórmula já é conhecida do cd anterior, havendo uma mistura de rock (o riff de “Conquistador” não engana quanto ao historial da banda) com psicadelismo e electrónica, que dão resultados agradáveis, embora longe do memorável.

A maioria do experimentalismo, essa, deixa-se para longe dos videoclips e dos media, com “The Race” a personificar melhor essa vontade de inovar, através da mistura entre violinos e sintetizadores, que resulta de forma magnifíca e chega a soar à famosa banda-sonora de Requiem for a Dream (onde um dos protagonistas era… Jared Leto).

Claro que, se existe inovação, também existe reciclagem, com “City of Angels” a parecer uma versão gasta de “Kings & Queens” que, por si só, já não era uma faixa muito interessante.

De realçar ainda que, com esta mudança de sonoridade, a banda começa a parecer aquilo que muitos a sentenciam desde início: uma extensão do ego de Jared Leto, com a voz deste a ser o principal destaque de cada canção e, embora ele nunca comprometa e tenha uma forma por vezes invejável, por vezes apetecia mais dar espaço a toda a banda e não só ao seu líder.

Isto exemplifica-se sobretudo nas baladas, numerosas neste cd e que normalmente consistem apenas em Leto e outro instrumento em grande parte da faixa, seja este piano (como na emotiva “End of All Days”) ou sintetizadores (na também enorme “Northern Lights”), que, ainda assim, estão entre os melhores momentos do disco.

Para trás ficam algumas faixas mais optimistas e, (por isso?) mais fracas (“Bright Lights” e “Do or Die”) e chegamos à final “Depuis le Début”, instrumental que combina acústica com electrónica e até uma caixa de música e encerra o cd em grande estilo, mostrando uns 30STM ansiosos por inovar e com bons momentos de inspiração, mas que ainda deixam algumas saudades da sua “persona” inicial.

Análise de Jorge Martins