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Ulver – Childhood’s End

Na senda do ecletismo que carateriza esta publicação feita de palavras, bits e bytes, continuamos a nossa busca pelo velo de ouro, tendo apenas a velada orientação de um obsidiante fio de Ariadne.

Hoje as nossas deambulações pelo labirinto musical, conduzem-nos ao último trabalho dos iconoclastas Ulver. Na verdade, estes “lobos” noruegueses têm a capacidade de nos surpreender a cada novo álbum, rasgando várias camadas de pele e transmutando-se licantropicamente em diversas entidades musicais. De fato, aparentemente, pouco resta do black metal original, ao nível da sonoridade da banda, visto que, atualmente, os Ulver geram ambientes avant-garde, plenos de experimentalismo e melodia.

O novo “Childhood’s End” é, inteiramente, um álbum de covers de rock psicadélico oriundo da década de 60, uma verdadeira “trip” ácida através de paisagens caleidoscópicas envoltas em nefelibatas nuvens de ópio.
“Bracelets of Fingers”, um original dos Pretty Things, é o exemplo paradigmático da qualidade deste regresso ao passado. Além de ser um dos temas mais cativantes do álbum, esta versão de “Bracelets of Fingers” ganha novo dinamismo e uma vasta amplificação da sua matriz psicadélica.

Depois do tema inicial, o mais longo do álbum, as músicas sucedem-se com a velocidade de estrelas cadentes, fugazes lampejos de dois ou três minutos que conferem grande vivacidade a este “Child Hood’s End”. Merecem destaque momentos como “Today”, original dos Jefferson Airplane, com um ritmo cadenciado e downtempo e uma interpretação extremamente melódica ao nível da voz de Kristoffer Rygg. “I Had Too Much to Dream Last Night”, dos Electric Prunes, é o contraponto perfeito para “Today”, pela intensidade e cavalgada rítmica que a banda impõe desde os acordes iniciais, convidando ao movimento oscilante dos corpos. Surpreendente, “66-5-4-3-2-1”, um tema pleno de distorção e energia punk-rock, que recupera o som dos ingleses Troggs. Irresistíveis os momentos mais “chill out” como a delicodoce “Everybody’s Been Burned”, “Dark is the Bark” e a melancólica e saturniana “Velvet Sunsets”.

Em resumo, “Childhood’s End” escapa ao sindroma crónico característico da generalidade das compilações de covers, que geralmente se limitam ao revivalismo nostálgico. Na verdade, depois dos primeiros temas, esquecemos completamente que este não é um álbum de originais de Ulver e viajamos enlevados nesta teia sonora que hipnotiza os sentidos e nos coloca num estado de torpor melífluo.

Análise de Rui Carneiro