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Um mercado em declínio ou um mercado de declínio? – Parte 2

Ao olhar para o exemplo das programações camarárias, a falta de conhecimento dos diversos mercados musicais é notória. Muitas câmaras municipais gastam o dinheiro de um ano inteiro de produção cultural numa semana “à grande”, recheada dos artistas mais caros da praça. Com essas investidas, esperam calar as bocas críticas de quem diz que por ali “não se passa nada”. “Acontece pouco, mas o que há é à grande”, defendem-se. Neste processo, as populações passam totalmente ao lado de tudo aquilo que é emergente, entretendo-se essas seis horas anuais com espectáculos de artistas que já conhecem, já viram e reviram e que voltam a ver e ouvir por falta de opção. Por consequência, a maioria da população de um dado concelho não procura música nova, e quando exposta a ela, reage com a estranha arrogância típica da ignorância – não conheço, não presta, se fosse bom, já tinha ouvido falar.

Os vereadores da cultura encostam-se ao poleiro da reeleição e não do trabalho. Oferecendo um Sérgio Godinho e um Pedro Abrunhosa uma vez por ano, sabem que não obtém os votos de quem se interessa pelas novidades culturais, mas garantem as cruzes no boletim de todos os outros, os da Casa dos Segredos, os da M80, os das pragas telenovelísticas. No fundo, todos aqueles a quem são negadas formas de perceber que abraçar o novo não implica descartar o velho, menosprezando a população que se representa.

As críticas acabam por ter pouco impacto e voam na mesma direcção dos votos em maioria, pois é mais fácil convencer um povo em crise de que as coisas têm de ser assim do que mostrar-lhe que pode ser doutra forma, que o dinheiro de dois espectáculos pagaria um ano de eventos todos os fins-de-semana.

A cultura encontra-se novamente ao serviço da política, tal como acontecia nos tempos da velha senhora (com minúsculas, que as Maiúsculas têm de ser merecidas). As câmaras municipais, endividadas até ao osso, atiram areia para os olhos dos munícipes, e, um pouco ao espelho de toda a política nacional, estes vão-se conformando ao seu discurso, acreditam que foram outros a cavar o buraco que agora se tenta enterrar, que a culpa morre não só solteira como filha de pai incógnito, sem identificação e prostituída por becos bafientos de ratazanas com os sexos em brasa. Mas no fundo está tudo bem, pois hoje à noite há concerto do Anselmo Ralph e vai ser a loucura.

 

Daniel Catarino

Cantautor e vocalista nas bandas Uaninauei e Bicho do Mato.

Página oficial: http://www.danielcatarino.wix.com/home