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Vagos Open Air 2014 [Dia 1]

Neste último fim de semana, a equipa da Rock n’Heavy, para celebrar o nosso novo site [www.rocknheavy.com], decidiu fazer um retiro para beber cerveja e fazer cosias que se costumam fazer em parques urbanos à noite, do tipo aprender músicas dos escuteiros e cantá-las a satanás. O local escolhido foi a Quinta do Ega, em Vagos. Azar dos azares, já estávamos nós de calças na mão e alguém se lembrou de organizar um festival de Metal nesse mesmo sítio. Pois é, o Vagos Open Air este ano voltou a este belo parque, para a felicidade e infelicidade da vizinhança. Ainda nas redondezas do recinto, já era possível nos apercebermos de toda a romaria metaleira, jovem, adulta, sóbria, ou ainda de ressaca da noite de recepção ao campista. Todos eles espalhados pelos cafés, esplanadas, relvados e quartéis de bombeiros das redondezas, fazendo de Vagos a Meca do Metal durante estes dias. Os espaços do recinto também nos pareceram bastante agradáveis, excepto a mini tenda do Dj que se esqueceu da pen, obrigando assim os metaleiros a ouvir Big in Japan em loop durante 3 dias. (De aplaudir a zona reservada a fãs com problemas de mobilidade.)

Ocasionalmente, durante o festival, algumas bandas subiriam a palco, dando concertos e tocando para o público. Estando a nossa equipa vestida a rigor com tshirts menos próprias, decidimos que não seria má ideia fingir que estávamos ali a cobrir o festival.


A banda que teve a honra de desvirginar esta edição do Vagos foram os Gates of Hell, que vieram com a chave abrir as portas do inferno para o resto do festival. A banda do Porto soube pegar bem no público, ainda fresco e recém-chegado, principalmente com o repertório rápido, asfixiante e thrashado do último álbum “Critical Obsession”. Pegou tão bem, que o facto de o som cá para fora estar tão mau não abrandou a multidão. Esta custou a arrancar, mas o pequeno aglomerado de gente começou a mexer e bem, por vontade própria, ou por insistência do Raça (vocalista) a pedir-lhes para iniciarem circle pits. Numa reflexão pessoal, pude observar mais tarde que este foi um pequeno mal, principalmente das bandas nacionais, durante todo o festival. O saturar e banalizar de pedidos para circle pits e walls of death, fazendo ou não sentido no segmento da música que se está a ouvir. Um overdoing cheio de boas intenções, mas que aliado aos habituais discursos moralistas (missas) sobre a “obrigatoriedade” de apoiar o metal nacional, acabam por convergir sempre num efeito auto inferiorizante, que vai contra a boa disposição que se requer nestes concertos e no ambiente destes festivais, e que outras bandas mais tarde demonstrariam. “Don’t ask, let them”, já dizia o outro. É uma observação que calhou de estar aqui, mas que podia ser aplicada a tantos outros exemplos. Reflexões à parte, os Gates of Hell acabaram o concerto em grande com a música homónima Critical Obsession, fechando com bastante energia a estreia do festival, e levantando a tão infame poeira que deu cabo do relvado da quinta do Ega.


Tinha grandes expectativas para o concerto dos Kandia. Com álbum novo e formação nova, estava curioso para ver como correria. Apesar de o som estar abismalmente melhor neste segundo concerto do dia, infelizmente as expectativas não foram correspondidas. A entrada da banda foi tímida, o que não seria de esperar com uma música tão potente como New Breed, do novo álbum All is Gone. Mesmo com um número razoável de tshirts da Luminous Legion no recinto, estes não foram suficientes como catalizador de um público, no geral, apático. O concerto seguiu a uma boa cadência, maioritariamente com músicas no último álbum como a Karma ou o single Scars (que levantou mais braços). O contacto com o público foi mais pobre do que esperado, assim como uma despedida que foi mais rápida do que é habitual. A nível individual, a performance da banda esteve a um bom nível, até porque os novos elementos Tiago Delgado, Bruno Martins e Hugo Ribeiro não deixam margem para dúvidas a nível de qualidade. No entanto, como grupo, penso que ainda seja preciso dar algum tempo para a banda maturar o espetáculo ao vivo. E por falar em espetáculo, Kandia sempre foi uma banda que vi como exemplo a nível estético e de cuidado com a imagem, tanto ao vivo como em material promocional. Aspecto que achei um tanto descuidado neste concerto, exaltando ainda mais uma coesão geral em cima de palco que não esteve no ponto. Apesar de tudo, acredito que o futuro trará ao de cima todo o potencial que não foi mostrado neste concerto em específico.


A primeira banda internacional do dia foi Sylosis, vinda de Inglaterra. (Ao contrário de Paradise Lost, estes não trouxeram chuva com eles). Esta banda teve uma falsa partida em 2012, quando tiveram que cancelar vários concertos, sendo um deles, em Portugal, com Fear Factory e Devin Townsend, no Hard Club. Sylosis é o exemplo vivo da minha reflexão do início da reportagem. Foram os que menos pediram e mais receberam. Deixaram que a música falasse por eles, e o que aconteceu foi que o thrash de altíssima qualidade deste jovem quarteto não deixou ninguém parado. A esta altura, o som que saía das colunas estava no ponto, e apesar da velocidade e agressividade, cada uma das mil notas por segundo eram perceptíveis. O concerto marcou a última actuação com a banda do baterista Rob Callard, que, segundo Josh Middleton (vocalista), vai abandonar o projecto para seguir carreira a solo como cantor de covers de Mariah Carey. Porém, antes disso, e na mesma onda de boa disposição e humor com que nos deliciaram, houve ainda tempo para pôr o público a fazer headbang ao som de nada, assim como um belo par de circle pits antes de terminarem este concerto fulminante com a mais que conhecida Empyreal, do álbum Edge of the Earth.


Os Soilwork já não vinham a Portugal há cerca de 10 anos, e não sei se foi pela chuva, pela hora de jantar, ou pela banda em si, mas notou-se uma clara divisão no público durante o concerto. O que não evitou que se levantasse alguma poeira com os habituais circle pits e crowdsurfing a darem que fazer aos seguranças. O concerto prosseguiu com tranquilidade, e por tranquilidade traduz-se death metal melódico sueco de qualidade. Um dos pontos altos do concerto foi talvez a Spectrum of Eternity, do álbum The Living Infinite. A energia da banda ao vivo, e principalmente de Bjorn Strid foi contagiante e incessante. Um bom concerto, especialmente para quem está familiarizado com a banda.


Se Epica e Kreator (ou qualquer outra banda do dia) têm alguma coisa em comum, talvez não, mas o que interessa é que esta banda fez toda a gente ficar colada ao palco, quer gostasse do estilo ou não. Quero deixar claro que não estou a mandar nenhuma piada sobre a beleza e avantajamento da vocalista Simone Simons. Epica surpreendeu muita gente que não estava à espera de ser surpreendida. Não é difícil de explicar, visto que não estamos a falar da típica banda de metal sinfónico em que a vocalista está vestida de casamento e o resto da banda está atrás a acompanhar. Os Epica trouxeram ao Vagos um espetáculo muito bem montado, e com pujança permanente, tocando clássicos já conhecidos como a Unleashed, do álbum de 2009 Design your Universe, ou a mais recente The Essence of Silence, do álbum The Quantum Enigma, de 2014. Os Epica acabaram o concerto prometendo voltar a Portugal por volta de Novembro a promover o novo álbum.


Estamos finalmente a chegar ao fim do 1º dia do Vagos Open Air, com os deuses (desculpem-me a blasfémia) ou Diabos do Thrash mundial, Kreator! Com eles trouxeram na bagagem alguma pirotecnia light, e purporinas, o elemento mais male enhancer conhecido pela humanidade. O concerto de Kreator foi, como se costuma dizer, sempre a abrir. Durante horas o Kriador martelou a alma dos fãs com riffalhada atrás de riffalhada. O maior wall of death do dia (e quase do festival) aconteceu neste concerto, a pedido do vocalista alemão Mille Petrozza, um verdadeiro animal de palco. “Let there be riots” é parte da letra que compõe uma das suas músicas (Civilization Collapse), e que expressão melhor para descrever o caos, violência e agressividade do concerto dos gigantes. A noite acabou bastante tarde, no que foi talvez o dia mais cansativo de reportagem no Vagos.


Texto: Joel Araújo | Fotografia: Daniel Carvalho
Agradecimentos: Prime Artists | VOA