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Vagos Open Air 2014 [Dia 2]

Depois de um primeiro dia de festival (1º dia aqui) que não incluiu um par de tampões para ouvidos nem protector solar, foi altura de improvisar e resolver definitivamente estes problemas para o segundo dia. Como se não fosse mau o suficiente estar a usar uma t-shirt a dizer “Esta banda vai processar a www.rocknheavy.com depois de ler a minha reportagem”, agora parecia também um turista norte-americano, branquela com bronze à trolha, com os óculos do meu avô e com um chapéu de linho castanho claro. Perfeitamente equipado para um festival de Metal, pensei que o dia tinha tudo para correr bem. Para a organização correu, visto que os bilhetes esgotaram para este dia.


A primeira banda do dia, diretamente vinda da Madeira, foi Requiem Laus. É sempre positivo ter bandas das ilhas convidadas para estes festivais no continente, principalmente como montra do que se faz nos vários cantos do país a quem vem de fora. Infelizmente, dava mesmo a impressão que só os estrangeiros estavam a ver o concerto, dado o número muito reduzido de público durante a atuação da banda. Além de serem poucos, também a apatia parecia generalizada, não conseguindo perceber se era do cansaço da noite anterior, ou se da mistura agressiva de death/black metal que não estava a ser verdadeiramente convincente. Infelizmente, o som que a hoste ouvia estava péssimo, algo que é sempre fatal para este tipo de metal técnico e agressivo. Em agravante, talvez porque o som no palco estivesse pior, a performance da banda foi, a meu ver, mediana, com alguns desfasamentos e atropelamentos musicais pelo meio. Para uma banda tão experiente e reconhecida como esta, não tenho dúvidas que isso se tenha devido a algum factor externo, but still... A banda despertou, no entanto, a curiosidade de os ver de novo ao vivo, mas com outras condições. No resumo da reportagem do terceiro dia do Vagos farei uma pequena observação sobre a minha perceção da prestação geral das bandas nacionais nesta edição do festival.


Os Angelus Apatrida são uma “banda de baile” de Albacete, e em suma, criaram dos maiores “bailes” do dia no recinto do VOA. Apesar de achar algo lame tocar covers batidíssimas no soundcheck, a banda meteu o público a cantar e a abanar a cabeça, mesmo antes de começarem o concerto. De referir que, nesta atuação, o som passou da água para o vinho (cerveja será mais apropriado). A thrashalhada destes senhores meteu toda a gente a dançar e a surfar ao som de “hits de verão” como a “You are Next”, do álbum The Call, ou a “Blast Off”, de Clockwork. Lá por uma banda tocar música agressiva não quer dizer que tenham que ter uma postura agressiva, e este é um belo caso. A boa disposição, humor, simpatia e empatia com o público provam mais uma vez que não são as bandas que têm que se levar a sério, mas sim fazer com que os fãs o façam. Num concerto sem sleepers, o ritmo non-stop, sempre a rasgar, deixou toda a gente de boca aberta, naquela que foi uma das agradáveis surpresas do dia.


Pelo burburinho, especulei que os The Haunted, vindos da Suécia, seriam um das bandas mais esperadas do dia. Foi bom ver o vocalista Marco Aro com uma t-shirt da Mosher, marca portuguesa de merchandising presente no festival. Apesar de apenas conseguir supor a causa, este mesmo senhor passou todo o concerto com uma mancha de sangue na testa, naquele que foi o momento mais trve (a seguir a Behemoth) do festival. A atuação dos The Haunted manteve e elevou a fasquia do concerto de A. A. Sempre a abrir, com pits e muita poeira no ar. Tanta, que a dada altura, por pouco deixava de conseguir ver o palco. Facto que ia usar como desculpa para deixar de escrever e ir jantar… Tal não aconteceu, e ainda bem, pois pude assim descobrir que “pit” em sueco significa (NSFW): Pila. Deixo desta forma aberta à vossa interpretação o significado de “circle pit”. Os momentos altos do concerto foram provavelmente as mais conhecidas “99”, do álbum, rEVOLVEr, e “Guilt Trip” de The Dead Eye.


Bem, por onde devo começar? Behemoth foi, para muitos, o ponto alto do dia e uma das bandas a entrar no top 5 do festival. Uma coisa é certa: a nível cénico, levaram o troféu. As pinturas, as vestes, o backdrop, as tochas de fogo, em conjunto com o black metal fulminante, contribuíram para um dos melhores espetáculos do festival. A entrada foi com “Blow Your Trumpets Gabriel”, seguindo-se “Ora Pro Nobis Lucifer” do último álbum, The Satanist, o que chegou para criar um enorme pit (espero que a esta altura já não estejam a pensar na pila). Com uma presença incrível e som incessante, apenas prejudicado por algum embrulhar de ruído (nada de grave), o concerto prosseguiu a todo o gás, deixandoalgo indiferente apenas o público não tão fã deste estilo musical extremo. Depois de 666 minutos de blast beats, e de umas máscaras com cornos colados com fita cola, a banda deu por terminado um concerto que ficará na memória de todos.


Annihilator trouxe-nos o thrash old school, o backdrop old school, a parede de amps old school e uma platéia old school. Não sou de dizer “o antigamente é que era bom”, mas tenho que dar o braço a torcer neste concerto. Apesar de o atual alinhamento da banda ser ou não ser o preferido de x ou y, acho que ninguém fez má figura, muito pelo contrário, principalmente o mestre de cerimónias Jeff Waters, com a sua energia, humor e humildade. Ver este senhor a correr o palco de um lado ao outro, enquanto thrasha a guitarra, é uma memória difícil de esquecer. Devo dizer que comecei a escrever acerca deste concerto um pouco atrás da mesa de som, mas a curiosidade fez com que me acercasse do palco. Ao aproximar-me de uma grande nuvem de poeira, admito sentir-me a entrar num outro concerto. A energia perto do palco, o ar quase irrespirável, o headbang e moche quase tornaram a minha caligrafia ainda mais ilegível do que já costuma ser. Se é recomendado estar no centro do caos com um caderninho e caneta? Não é! Mas não podia ter escolhido melhor sítio. “Alison Hell”, como seria previsível, foi um dos momentos marcantes, assim como algumas brincadeiras feitas pela banda, como a música “Chicken and Corn”, só para a desbunda. Boa disposição, bom metal, amigos, cerveja… A esta altura o Vagos 2014 estava a tornar-se num evento verdadeiramente especial.


Finalmente, chegávamos à banda que todos esperavam: Opeth. Talvez de tanto esperarem, e com tão bons concertos durante o restante dia, as expectativas tornaram-se um tanto elevadas. Sendo bastante direto: Opeth desiludiram-me. Sou um grande fã da banda, mas desiludiram mesmo. Porém, ao contrário da opinião geral que tenho observado nas redes sociais, a setlist não foi a principal razão (se bem que pode ter ajudado ao resultado final). O Mike Akerfeldt (vocalista) é, sem dúvida, um comediante e o seu humor é de génio, mas… isto é um concerto, não uma stand up comedy! O tempo morto entre músicas foi absurdo, tornando todo o espetáculo em algo pouco orgânico e até preguiçoso. Eu não percebo nada de guitarras, mas expliquem-me uma coisa: as PRS não são guitarras caras? Capazes de se manterem afinadas durante mais do que uma música? Tanto tempo perdido a afinar a guitarra transportava-me, por momentos, para aqueles concertos amadores em que a banda simplesmente não parece encontrar o ritmo para o seu próprio concerto. A aliar a isto, o som que saía do palco não estava ao nível daquilo a que Opeth nos habituou. Não estava o som, nem a performance da banda no geral, que me pareceu demasiado descontraída, no mau sentido. Falando da setlist, sim é verdade, foi mais calma do que é habitual. Facto que não seria mau, se o espetáculo tivesse sido bem encadeado. A entrada com “The Devil’s Orchard” teria feito sentido, se, logo a seguir, não tocassem a “Heir Apparent”, ou seja, tivemos uma falsa partida e depois uma partida, porque são ambas músicas de abertura. De resto, “Blackwater Park” e “Deliverance” fizeram as delícias dos metaleiros presentes, assim como trouxeram finalmente alguma vida ao concerto. Concerto esse que, fatalmente, acabou sem um encore que o pudesse salvar. Too little, too late.


 

Texto: Joel Araújo | Fotografia: Daniel Carvalho
Agradecimentos: Prime Artists | VOA