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Wardruna [Abril 2013]

Ela é o vértice feminino de um triângulo musical que conta ainda com Einar “Kvitrafn” Selvik e Kristian Eivind Espedal aka Gaahl (ambos ex-Gorgoroth). Juntos, eles formam um tríptico musical que tem sido laureado pela crítica: WARDRUNA. O trabalho mais recente, Yggdrasil, chega de Bergen, na Noruega, e traz consigo a beleza selvagem, inóspita e agreste do Norte. Demiúrgica e etérea, a voz de Lindy-Fay Hella ecoa hoje pelas páginas da Rock n’Heavy.

Lindy-Fay, antes de mais, obrigado por despenderes algum do teu tempo para responderes às nossas questões.

Pelo que sei, passaste a tua infância junto ao mar nos arredores de Bergen, logo as maravilhas do mundo natural fizeram parte do cenário do teu crescimento. Achas que essas paisagens fantásticas funcionam como verdadeira fonte de inspiração para a música dos WARDRUNA, e que ela não soaria da mesma forma se fosse originária de outra parte do mundo?
Sim, sem dúvida. É fácil ouvir a essência da natureza ocidental da Noruega na música do Einar. Chuva, vento e frio, mas também paz e tranquilidade. Todos nós crescemos com a natureza por perto, logo é natural termos sido inspirados por ela.
Quando canto com Wardruna sonho muitas vezes com a floresta e o oceano do local em que cresci. Grandes memórias. É interessante ouvir música oriunda de outras zonas do mundo, precisamente porque muitas vezes ela mostra uma parte de outra cultura diferente e desse ambiente. Acho que Wardruna teria soado diferente se tivesse surgido num outro local.

Chegada à adolescência ouvias o “Black Celebration”, dos Depeche Mode, um dos álbuns mais influentes dos anos 80, um disco cheio de paixão, saturniano e melancólico. Disseste que ele tornou-se a base da tua estética musical.
A partir desse momento, como foi que te tornaste cantora, e tens outros projetos musicais além de WARDRUNA?
O meu sonho era tocar sintetizador, eu era extremamente tímida na infância, logo cantar em público era para mim impensável. Passei muito tempo no meu quarto a tocar sintetizador e a cantar, e pensava que ninguém me conseguia ouvir. O meu primo, que era um dos líderes de um grupo coral local, convenceu-me, quando eu tinha 14 anos, a entrar para o coro e inscreveu-me como solista sem eu saber. Fiquei horrorizada com o ensaio e não consegui emitir um som. O segundo líder do coro sugeriu de imediato que eu nunca seria solista, mas o Roy afirmou o contrário. Todavia, quando atuamos perante uma audiência ouvi alguém dizer: “Ela vai cantar, ou não?” Essa frase foi a chave que deu à ignição e pôs tudo a funcionar em mim. Subitamente pensei: “Sim, eu vou cantar!” De repente, a timidez desapareceu e apoderou-se de mim um sentimento indescritível de liberdade. Tenho cantado, desde então, em concertos e em várias gravações não apenas a solo, mas também com outros músicos e gravei um álbum para o trio electro-punk “Sound of Sotra”. Eu e o Arne Sabdvoll, um dos músicos que tocam ao vivo com os Wardruna, trabalhamos em conjunto, há já muitos anos, numa banda chamada Ullan Gensa. Não nos vamos apressar num primeiro lançamento, estamos a aproveitar o nosso tempo. Mas já tocamos algumas vezes ao vivo. O designer gráfico Polkapixel fez alguns vídeos para nós e continuará connosco no futuro.

Nos WARDRUNA estás ombro a ombro com dois ícones do Norwegian Black Metal. Os carismáticos regougos graves e obscuros do Gaahl fundem-se perfeitamente com a tua voz etérea e quase élfica. Nasce assim uma união exemplar, como é que isso aconteceu e integraste os Wardruna? Como é trabalhar com eles?
Conheci o Gaahl depois de um concerto dos Gensa Ullan. Ele visitou-nos nos bastidores com um amigo comum e, desde então, temos sido amigos. A nossa música é muito diferente, mas, de facto, é algo que funciona muito bem
em conjunto, musicalmente. Alguns anos depois, tivemos uma nova atuação em Bergen. O Einar estava presente e contactou-me pouco depois para saber se eu estava interessada em fazer parte do seu novo projecto, Wardruna, Bergen é uma cidade pequena, mas conta com uma elevada percentagem de músicos. Frequentemente eles trabalham em conjunto, fundindo géneros, logo nunca pensei no Einar e no Gaahl como lendas da cena Black Metal. Penso que são ambos excelentes músicos e eles nunca param de me surpreender. Acrescento que a dimensão espiritual de Wardruna é também, pessoalmente, muito enriquecedora.

Ouvindo “Fehu”, single de Yggdrasil, temos um primeiro contacto com a tua voz. O que nos podes dizer sobre essa música em particular e sobre a forma como foi feita a seleção dos singles?
Os textos antigos evocam em mim diferentes emoções e recordo-me de sentir que tinha que me concentrar e não me deixar levar enquanto gravava esta canção. Gosto especialmente da secção do meio onde o Gaahl se assemelha a uma cobra a serpentear na relva. O Einar decidiu que “Helvegen” seria o primeiro single, nós conversamos um pouco acerca disso e ficou decidido que “Fehu” devia ser o próximo.

Fazendo a ponte entre Gap Var Ginnunga e Yggdrasil notei que a componente vocal ganhou muito mais espaço e expressão na música de WARDRUNA. De facto, a tua voz está em destaque em várias das canções do álbum. Isso foi algo planeado ou aconteceu naturalmente?
O Einar queria uma colaboração mais estreita entre mim e o Gaahl em Yggdrasil. Assim sendo tornou-se natural uma maior experimentação com os vocais. O contraste entre o feminino e o masculino encontra-se sobreposto. Algo que é bem evidente neste álbum.

Ocasionalmente as músicas de WARDRUNA são gravadas, fora do estúdio, em tempos e lugares específicos? O que nos podes dizer sobre as gravações? Gravaste a tua voz em lugares especiais a fim de captar a magia e a emoção do local através do canto?
Sinto necessidade de ficar sozinha por algum tempo para me concentrar nas coisas. Faço caminhadas pelos bosques, enquanto ouço música, de preferência à noite. Os cheiros da natureza são muito inspiradores e eles são diferentes durante a noite. Isso ajuda-me a ficar numa determinada disposição emocional, onde todos os sentimentos estão centrados em torno daquilo que ouço nos auscultadores. Algumas das ideias para os vocais, por exemplo a primeira parte de Sowelu, era uma melodia que simplesmente se recusou a desaparecer. Eu fiz todas as gravações em estúdio, mas sinto que estou a viajar enquanto canto, afastando-me do presente.

Na minha análise referi que alguns dos melhores momentos de Yggdrasil contam com a tua voz inconfundível e encantadora amplificando a nota lírica e melódica. Nomeadamente, “Solringen” e “Sowelu” são avassaladoras. Tens algumas canções favoritas?
Sinceramente, para mim é extremamente difícil apontar as minhas favoritas, mas gosto particularmente de “Ingwar”, muito por causa das vozes andróginas, quase histéricas, do Einar e do Gaahl. A “Fehu” é muito direta e o contraste entre a percussão poderosa, os coros e a parte central mais calma e tétrica faz dela outra das minhas favoritas. E depois há a “Helvegen” com a letra mais bonita de todas.

Finalmente, gostarias de deixar uma mensagem aos vossos fãs portugueses?
Quero agradecer a todos pelo vosso interesse nos Wardruna e espero que nos possamos encontrar todos num concerto aí no lindíssimo Portugal! Tudo de bom, Lindy-Fay