free website stats program

Wardruna – Yggdrasil

“Plantando novas sementes, fortalecendo velhas raízes”

Pensem em Gorgoroth! Lembram-se do “Twilight of the Idols” com Einar “Kvitrafn” Selvik na bateria e Gaahl a puxar pela glote? Agora esqueçam tudo isso! Wardruna é, atualmente, o verdadeiro manancial criativo de Kvitrafn, e dele flui a seiva viva do espiritualismo nórdico e do misticismo das runas. Na verdade, as runas com toda a sua carga simbólica e mágica são a maior fonte de inspiração para a música dos Wardruna. Esqueçam Gorgoroth! Pensem nuns Dead Can Dance saturnianos e oriundos dos gélidos fiordes noruegueses.

Estávamos em 2003, quando, depois de um banho lustral de imersão nas raízes profundas da tradição viva do Norte, Kvitrafn uniu forças com o seu antigo correligionário nos Gorgoroth, Kristian Espedal (aka Gaahl) e com a cantora Lindy-Fay Hella.

No entanto, foi em 2009 que a música dos Wardruna (literalmente – “Guardião dos Segredos”) emergiu do húmus negro oculto debaixo do gelo eslavo. “Gap Var Ginnunga”, primeiro capítulo da trilogia “Runaljod”, cativou audiências e recolheu críticas unânimes quanto à singularidade de uma banda que promove um regresso a motivos musicais ancestrais, utilizando os instrumentos e a métrica originais. De facto, entre os instrumentos utilizados contam-se tambores de pele de veado, diversos violinos tradicionais e também uma réplica da “Kraviklyra” (o mais antigo instrumento de cordas da Noruega). Acrescente-se que para criar a atmosfera ideal e o melhor substrato musical ouve-se ainda o ribombar de trovões, chilreares e o vento sussurrante nas copas das árvores.

O novo “Yggdrasil” retoma a senda anteriormente encetada, no entanto, as veredas afloradas no passado são agora exploradas de uma forma mais intrincada, facto que não será porventura alheio à colaboração com o afamado compositor Islandês Hilmar Örn Hilmarsson e com Steindór Andersen, um célebre cantor Rímur.

Os Wardruna apresentam particularidades que tornam a sua música especial, de relevar o seu “sui generis” processo de gravação, dado que a fim de captarem a ambiência ideal para cada tema, ocasionalmente, registam elementos musicais em sítios ou momentos com especial carga simbólica. Assim sendo, em “Gap Var Ginnunga”, a voz para “Laukr” (a runa da água) foi gravada dentro de um rio, “Jara” no solstício de inverno e “Dagr” no solstício de verão.

Para entendermos o alcance conceptual de “Yggdrasil”, temos de regressar às origens e ao primeiro capítulo da trilogia. “Ginnungagap” é o grande vazio cósmico onde tudo foi criado segundo a mitologia nórdica, simbolizando o momento da criação da semente primordial. “Yggdrasil”, a árvore do mundo (símbolo omnipresente em quase todas as mitologias), corresponde à fase de crescimento e maturação dessa “semente”. O último capítulo fica reservado para “Ragnarok.”

As noções aqui mencionadas radicam em princípios universais: o mito do eterno retorno e a circularidade mística, daí que o álbum siga essas directrizes e as músicas assentem na reiteração insidiosa dos mesmos padrões melódicos e, por vezes, quase xamanísticos, sendo “AnsuR” um dos melhores exemplos destes últimos. Citando Einar: “Muitas vezes as runas são o compositor e eu o seu instrumento.”

Musicalmente, a primeira grande evolução em “Yggdrasil” é a dimensão vocal, sendo de relevar o facto de agora encontrarmos com maior frequência a voz demiúrgica de Lindy Fay Hella, sendo de realçar que os melhores momentos do álbum são aqueles em que Lindy assume maior protagonismo.

Assim, depois do intróito xamanístico etéreo “Rotlaust Tre Fell”, ouvimos “Fehu” (a runa que simboliza “dinheiro”, “riqueza”), primeiro momento em que a voz de Lindy se insinua no nosso âmago com um misto de encanto e sedução. “NaudiR” parte da nota feérica para depois trazer Gaahl à ribalta desta celebração mística, sendo que a nota difusa e sombria cresce exponencialmente. Depois começa a avolumar-se o misticismo com “EhwaR” a instalar uma ambiência que oscila entre o folk e algo semelhante a um transe darkwave e psicadélico, graças às redundâncias melódicas. “AnsuR”, como dissemos anteriormente, recria uma espécie de ritual xamânico, no entanto, musicalmente este é um dos momentos menos cativantes do álbum. “IwaR” continua a avançar na senda cerimonial, mas com uma maior diversidade ao nível das vocalizações e da componente instrumental. No entanto, neste momento, já ansiamos por voltar a escutar Lindy-Fay Hella em todo o seu potencial. “IngwaR” marca pontos em termos de dramatismo e expressividade, com uma miríade de estímulos sonoros confundindo-se para criar uma atmosfera de delírio místico. Depois “Gibu”, na sua vocação mais lúdica, prepara a viragem para aqueles que são, na nossa opinião, os momentos mais sublimes do álbum.

De facto, os melhores momentos são aqueles em que “Yggdrasil” mais se aproxima das sonoridades cultivadas pela banda de “The Serpent’s Egg”. Assim Solringen é uma epifania estival, a voz de Lindy-Fay Hella brilha com esplendor solar, causticante e coruscante, evolando sobre o canto em cânone de Kvitrafn e Gaahl. “Sowelu” abre com uma atmosfera inquietante e sombria, mas esta será a canção de Lindy, é a sua voz obliquamente sedutora que preenche, num primeiro momento, cada recanto, cada momento de intensa perplexidade, depois, como em “Solringen”, as vozes masculinas colam-se ao tecido musical para adensar a dimensão sinistra e soturna da música.

Este álbum requer toda a atenção do ouvinte, está repleto de pormenores subtis, daí que se recomende a audição com recurso a auscultadores e, preferencialmente, num ambiente nocturno e livre de interferências exteriores. Exemplo da qualidade da gravação e da produção é o epílogo “Helvegen”, um tema para ouvir com minúcia a fim de interiorizar a energia da atmosfera, da música e das palavras.

“Yggdrasil”, a árvore do mundo! Uma boa forma de comemorar o dia em que se celebra o milagre da natureza contido em cada árvore, escutando esta música para através dela despertarmos a nossa consciência para o mundo dos mistérios oculto em cada folha, em cada flor, e também dentro de cada um de nós.
Análise de Rui Carneiro