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Within Temptation – The Unforgiving

The Unforgiving”, o novo álbum de WITHIN TEMPTATION (WT), foi lançado em Portugal a 28 de Março e, ao contrário do que sucedeu com o seu predecessor, neste caso o processo de gravação decorreu quase exclusivamente na Holanda, sendo que a mixagem teve lugar na Suécia e a produção ficou a cargo de Daniel Gibson.

“The Unforgiving” é o paradigma da nostalgia 80’s que actualmente cativa diversas formações musicais do panorama internacional. Na verdade, estamos perante um álbum multifacetado onde é notória uma convergência de estilos e influências, a par da diluição dos elementos orquestrais, sem que isso represente um desvio da sua matriz Metal (várias entrevistas aos músicos confirmam esta ideia), existindo, isso sim, um maior ecletismo ao nível processo criativo, facto que conduz a registos que vão desde o sinfónico até ao rock mais genuinamente 80’s.

Objecto artístico por excelência, “The Unforgiving” apresenta-se como um projecto sistémico, teleológico e conceptual que procura estabelecer pontes e criar fusões entre diversas formas de arte – da escrita à música, do comic ao filme.

O conceito explorado no álbum assenta na dicotomia dostoyevskiana Bem/Mal. Sinéad Harkin AKA Queen, a figura central deste drama, carrega sentimentos de culpa que a conduzem numa espiral catártica de luta contra o mal como forma de expiação de pecados do passado. Significativa para a compreensão do conceito é a seguinte afirmação de Sinéad na prequela do comic: “I once heard a religious scholar say: the key to redemption lies is remembrance”, esta premissa, que parece dar o mote para o álbum, reverbera logo na faixa de abertura “Why Not Me” – maldição ou bênção, bem ou mal, céu e inferno – o álbum, desde logo, explora essas dicotomias com um misto de agressividade e doçura. “Shot In The Dark” revela WT com uma toada rock muito 80’s, plena de melodia, intensidade e lirismo, com destaque para os solos bem clássicos. De facto, a banda agarra-nos de imediato com um início poderosíssimo, logo corroborado pela magnífica “In The Midle Of The Night”. A prestação vocal de Sharon é simplesmente exuberante e ao nível do melhor que encontramos actualmente no Metal (M/F). As guitarras galopantes e bem esgalhadas lutam por acompanhar em “full throttle” a amplitude tímbrica da vocalista, criando um dos temas mais rápidos e “in your face” da carreira dos WT. Saliente-se que “In The Midle Of The Night” e “Faster” são as faixas que Sharon den Adel elege como momentos apoteóticos do álbum. Não podemos deixar de concordar com a vocalista, visto que a musicalidade 80’s de “Faster” é, de facto, electrizante e arrebatadora. Depois de “Fire And Ice”, balada diáfana e atmosférica ao estilo mais convencional de WT, “Iron” entra como o martelo Mjollnir a malhar ferro na bigorna dos nossos ouvidos. A voz de Sharon deambula pelos limites da escala e os riffs de guitarra rivalizam ao nível dos agudos, conferindo à faixa uma aura épica e grandiloquente. “Where Is The Edge” surge, em seguida, plena de efeitos e distorção, mas menos apelativa do que as faixas iniciais. “Sinéad” abre com teclados atmosféricos, violinos diáfanos e um ritmo bem marcado pela percussão. Os arranjos orquestrais, a voz angelical, a batida cardíaca e os synths 80’s criam um dos momentos mais “upbeat” do álbum, despertando em cada músculo uma urgência de movimento. “Lost” contrasta totalmente com “Sinéad”, uma vez que, ainda com os músculos a vibrar, deparamos com uma balada de ritmo lento e melancólico, primorosamente executada ao nível instrumental e com a habitual qualidade de WT. “Murder” recupera a distorção de “Where Is The Edge”, mas o foco centra-se na voz de Sharon que surge em registos mais agressivos e dramáticos. Os primeiros segundos de “A Demons Fate” são extremamente promissores, no entanto, a música acaba por entrar numa construção muito linear, com a voz de Adel a colar-se a registos mais “mainstream”. De salientar que o solo final de “A Demons Fate”, magistralmente executado, é um dos momentos áureos do álbum. “Stairway To The Skies” é o culminar perfeito para um projecto conceptual que explora os meandros da luta do bem contra o mal como forma de expiação e redenção. A abertura da faixa é surpreendente, não tanto pelos teclados e motivos orquestrais recorrentes, mas sim pelos acordes que escutamos após o prelúdio que lembram o início de “Sweet Dreams (are made of this)”, de Marilyn Manson. Em seguida, instala-se uma ambiência celestial consubstanciada pela presença de um coro que evolui numa escala em crescendo, enquanto a expressividade da voz de Adel cria diálogos entre as componentes melódicas e líricas da música.

Em resumo, “The Unforgiving” possui as filigranas musicais características de WT, no entanto, confirma categoricamente que a banda está em evolução para patamares mais ecléticos que transcendem a esfera do Metal, conjurando elementos oriundos de outros hemisférios musicais, para criar uma estética verdadeiramente Rock n’ Heavy.

Análise de Rui Carneiro