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Xutos & Pontapés – Puro

Se formos falar de ícones da música portuguesa, decerto que os Xutos & Pontapés terão de estar presentes, como “pais” do punk nacional, força maior do rock (superados talvez apenas por Rui Veloso) e autêntica referência no nosso panorama musical, reconhecidos por todos.

No entanto, se é verdade que nos anos 80/90 tiveram discos marcantes e temas que facilmente se misturam com a História do rock nacional, também é verdade que há mais de uma década que não editam nenhum álbum relevante, perdidos num deserto de poucas ideias e rock FM banal.

Se no cd homónimo, pelo contexto de crise que assolava o nosso país, se pedia aos Xutos a sua música de intervenção que tanto os caracterizou e eles responderam apenas a “lume brando” com algumas boas ideias no meio de muitas baladas inconsequentes, em Puro, que assinala o 35º aniversário da banda, pedia-se, se não o mesmo espírito incendiário, pelo menos um regresso às origens (prometido inclusive, pelo grupo) merecedor de tal nome, o que, mais uma vez, não sucede.

E se, ao fim deste tempo e até pelas limitações dos membros já ninguém pede à banda que aborde lados mais experimentais e novos terrenos, pelo menos não é demais pedir que retornem ao seu punk, ou rock musculado, que os tornou relevantes, ao invés do espírito radiofónico que os torna cada vez mais amigos do trauteio e menos consequentes.
Não é que Puro não tenha bons momentos, destacando sobretudo “Cordas e Correntes” num registo mais catchy e “O Milagre de Fátima” ou “Ligações Directas” a mostrar uns Xutos pesados e próximos dos “bons velhos tempos” e, mais importante que isso, a transmitir o seu espírito típico nas letras mais inspiradas de Tim (Que se cante o Fado/Que se Louve a saudade/Este país quer mais futebol na primeira e Dá-me um cigarro/tou todo marado/dá-me um cigarro, juro que é p’ra comer na segunda).
Infelizmente, estes bons esforços são a excepção e não a regra, com o cd restante a perder-se numa mistura de baladas melosas e inconsequentes (e a mostrarem um Tim desinspirado nas letras, a contrastar fortemente com as anteriores) e futuros “hinos de estádio” que só conseguem soar banais e que parecem ser concebidos apenas para João Cabeleira mostrar todo o seu poderio na guitarra e, embora seja de louvar a sua expressividade nas seis cordas, a lembrar um Santana ou Satriani, as suas melodias são todas demasiado semelhantes e arrastadas, não salvando as faixas da precariedade.

Desta forma, por entre o esforço interventivo falhado em “Da Nação”, o rock banal de “Tu Também” ou o lado baladeiro (e foleiro) presente em “De Madrugada (Tu & Eu)”, sem esquecer “A Voz do Dono”, uma faixa em tons de paródia que soa má demais para ser verdade, os Xutos falham na sua promessa de regresso às origens e entregam mais um cd facilmente olvidável, que cada vez dá mais força às vozes que dizem que está na altura dos “dinossauros do rock” se despedirem.

Análise de Jorge Martins