Esfera + Treehouses [Popular, Lisboa]

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É para um Popular a meio gás (embora surpreendentemente composto para uma quinta-feira à noite) que os Treehouse actuam durante meia hora, fazendo a primeira parte dos Esfera.

O ambiente é descontraído entre banda e público, fazem-se piadas (de humor muito negro), manda-se levantar e agitar (“Isto não é um cinema!”, dizem eles) agradece-se como de costume e chamam-se bateristas em falta (tardou a aparecer o quarto membro dos músicos) e, claro, toca-se, sempre alto, mas nem sempre bem.

Afectados por diversos problemas de som (a bateria estava altíssima, abafando basicamente tudo o resto e em especial os microfones, que só se ouviam quando os vocalistas gritavam a plenos pulmões, com uma ou outra desafinação à mistura), os Treehouse deram o seu melhor e deixaram a pele em palco, mas não impressionaram.

A sua mistura de elementos de Post-Rock com Shoegaze e Post-Hardcore tinha momentos que, lapidados devidamente dariam grandes músicas, mas encontram-se diluídos entre interlúdios instrumentais lo-fi que estariam perfeitamente enquadrados na faceta de bandas-sonoras dos Explosions In The Sky, sem arriscar um milímetro, mas também sem cativar.

Acaba-se o concerto com muitos efeitos e muito esforço, mas sem História feita pelos Treehouses, que abandonam o palco rapidamente para dar lugar aos desejados Esfera.

E a verdade é que, assim que tomam o palco como seu, os setubalenses que vieram apresentar o seu CD de estreia (o magnífico All The Colours of Madness) dominam e encantam o público que entretanto se levanta e se vai abanando.

Tocando o disco na íntegra e pela ordem, a banda vai desfilando faixa após faixa de Prog eclético com retoques de Pop e Metal, mostrando uma nova vida nas músicas ao vivo, que se já deslumbravam em estúdio, aqui arrebatam mesmo, com momentos como a celebrada “Green” (que o vocalista Nuno Aleluia pede para o público cantar e ele vai acedendo) ou as palmas ritmadas de “White” levando o público ora ao rubro, ora à contemplação inquieta que também se pede por vezes.

Claro que tudo isto não seria possível sem músicos talentosos e estes respondem todos em plena forma: Nuno Aleluia, “a voz mais doce de Portugal”, como foi chamado pelos Treehouses, agiganta-se em palco e em registo ora delicodoce (confidenciou-nos que não é mais que um cantautor virado estrela de Rock) ora em gritos angustiados incendia o palco, acompanhado por uma dupla de guitarristas extraordinária (só detectámos um erro na introdução de “White”, mas desculpamos de bom grado) e uma secção rítmica impecável têm uma entrega notável e, mais importante, transportam-nos com eles para a diversão que aparentam estar a ter a actuar.

No final, encharcados em suor (o vocalista brinca que a banda restante vai ter de o pôr a secar), os Esfera só podem estar satisfeitos com o seu público conquistado por um disco exemplar que ao vivo se transforma numa viagem como já não se fazem no universo Prog (e ainda houve direito a um inédito também ele delicioso!) e só nos faz pensar no que o futuro reserva para esta grande banda nacional.

Texto: Jorge Martins || Fotografia: Maria Martins

Agradecimentos: Esfera || Popular Alvalade