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Filho da Mãe [Musicbox, Lisboa]

Há 2 anos quando vimos Rui Carvalho pela última vez, n’O Bom, O Mau e O Vilão, munido apenas de uma acústica e um pedal, nunca nos passaria pela mente que o veríamos em 2016 munido de guitarra eléctrica a destilar riffs psicadélicos capazes de encher de orgulho os Quelle Dead Gazelle e no entanto foi assim que o músico português nos recebeu na apresentação do seu novo disco, Tormenta.

Apresentado na íntegra, o álbum brilha com a inicial “Estrela e Acabada”, que mete toda a gente a dançar e apresenta aquela que seria a maior estrela da noite, o ‘cúmplice’ de Rui Carvalho, Ricardo Martins, o baterista, que se mostrou um tecnicista sempre vigoroso e pronto a encorpar todas as músicas com a sua percussão furiosa de contornos Jazz que ora incita a dançar, ora a contemplar, com pausas para abanar a cabeça e saltar até ao moche mais próximo.

No entanto, é com pena que vemos o Filho da Mãe a tornar-se demasiado confortável em segundo plano, não só para o seu companheiro como para os vários convidados com que nos brindou esta noite e os quais brilham, enquanto o guitarrista faz os ritmos e tece os padrões que pecam pela repetitividade em músicas que chegam todas quase aos 10 minutos sem qualquer motivo para tal, onde se salvou “Tritão”, em conjunto com a esposa Cláudia Guerreiro, baixista dos Linda Martini, que deixou a sua marca de Punk alternativo na música, talvez por isso mais directa ao assunto e menos refém do hipnotismo do restante álbum que mostra um Rui Carvalho bastante mais discreto do que o habitual e, infelizmente, bastante menos interessante.

Todos os músicos que pisam o palco parecem estar a divertir-se como nunca, embora esse sentimento nem sempre passe para o público, dando a toda a sessão um toque de gravação de garagem que, não sem encanto, parece demasiado vaga e inacabada, sobretudo quando os devaneios esquizofrénicos da guitarra de Norberto Lobo em “Pessoal Beto em Sítios Chungas” nos levam na melhor hipótese ao aborrecimento e na pior a semicerrar os olhos e a desejar poder fazer o mesmo aos ouvidos (descobriu-se finalmente alguém que abusa mais de wah-wah do que Kirk Hammet), ou quando Jibóia encerrou as festividades com o seu Grunge inflamado a dar préstimos em “Truta Salmonada” que, mantendo algum apelo pelos seus riffs repletos de fuzz, se perde mais uma vez em contemplações psicadélicas que ocupam tempo, mas não dão gosto.

E a actuação acaba por reflectir o que já se receava em disco, que não é que exista uma falta de ideias, mas elas são recicladas até ao ponto de já soar tudo repetido e banal, ocorrendo também uma falta de ganchos alarmante que mostrou Rui Carvalho incapaz de agarrar a plateia quando a letargia se impunha, derivado também de uma falta de comunicação em que as únicas palavras que o músico dirigiu ao público foram uns gritados ‘Obrigado! Até amanhã!’ por falta de microfone.

Sensivelmente uma hora (e seis músicas) depois do espectáculo começar, deu-se o término do concerto, deixando no ar um sabor agridoce em que compreendemos o esforço do guitarrista e o seu desejo de inovação e até o aplaudimos (embora aplaudamos mais Ricardo Martins), mas não foram poucos os momentos em que preferíamos que ele estivesse de guitarra acústica a tiracolo a interpretar “Helena Aquática”.