Fitacola [Popular, Lisboa]

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É muito fácil menosprezar os Fitacola enquanto banda; têm boas malhas, mas passam despercebidos num esquema maior. Não inovam nada no universo Punk (embora tenham vindo a polir o seu som desde raízes Hardcore até algo mais próximo de Pop Punk) e pertencem a um género que já tem morte anunciada a uma década ou mais.

Tudo isto pode ser verdade (na maioria são só meias verdades), mas depois de uma noite como a de passada sexta-feira no Popular de Alvalade ninguém teria coragem para dizer isso. Aquilo a que se assistiu foi a um verdadeiro concerto de culto, com público e banda em perfeita comunhão numa demonstração prática de que a cultura de clubes está intacta e que, acalmando as preocupações que a própria banda confessou a meio do concerto, o Punk ainda vive e de boa saúde.

“Vamos lá partir esta merda toda!” anuncia assim que sobe ao palco Diogo, o vocalista tornado baixista recentemente, lançando-se logo a uma incendiária “Ganhar ou Perder” com os fãs a entoar em uníssono o refrão memorável “SEREMOS ASSIM TÃO POUCOS A QUERER MUDAR ALGUMA COISA AQUI?” perante um bar a abarrotar completamente de gente irrequieta com a energia Punk no ar.

Muito bem-dispostos (muitas foram as piadas certeiras ao longo do concerto, culminando em “Se as T-shirts descontam para o IRS? O IRS é que desconta para nós!” e ainda no tema da indumentária “Não queres vender? Não queres, que não arranjas quem compre!” dizem eles a um fã com uma blusa antiga e presume-se rara da banda), os Fitacola vão desfilando êxitos mais recentes que vieram promover dos EPs lançados no ano passado, desde “O Teu Mundo” (dedicada ao recém-pai Xico, baterista, que “nem teve de fazer força” para a criança sair, aparentemente), passando por “Voltar Atrás” ou pela muito celebrada “Ressaca”, havendo claro espaço para tesouros clássicos como “Vício” (que dá o mote para um brinde ao público) ou “Outros Dias”.

Já de caos instalado, o público cedo abre espaço para moshes que se prolongam até ao final do concerto, dando-nos certas dúvidas se as fundações deste bar normalmente calmo estarão prontas para resistir a tamanha intensidade, misturando o suor do palco com o da plateia numa proximidade invejável.

E essa sensação de camaradagem só é possível porque, além da atitude bem-disposta e brincalhona, os Fitacola aliam música enérgica e de valores indeléveis (é uma grande ajuda cantarem em português e com um sentido de urgência que parece nunca desvanecer) sobre temas a que qualquer recém-adulto se consegue aliar a um carisma muito acessível e próximo da imagem que teríamos de irmãos mais velhos que nos metem OffspringFugazi a altos berros no quarto e nos ensinam a segurar numa guitarra e a pensar que aquilo também é possível para nós. Arriscamo-nos a dizer que, fossem outros tempos e os Fitacola seriam uma voz nacional equiparável aos Xutos nos seus voos revolucionários.

Entre o sentimento de impotência comum a qualquer um vindo dos anos 90 relatado em “Tentativa Falhada” (“Querer o melhor para mim/E no fim mudar quase nada”) e ao tributo ao envelhecimento de “Trinta”, passando pela loucura instalada em “Sapatinhos Xico”, dos momentos mais aplaudidos e celebrados da noite, a variedade e ainda assim identidade indelével nos temas mais recentes dos Fitacola mostra um reportório que se aguenta tão bem como os seus êxitos antigos, com os fãs a não fazerem distinções na hora de comemorar esta noite de Punk Rock nacional.

Aproximamo-nos do fim com a excelente versão de “Cai Neve em Nova Iorque”, de José Cid e os músicos confessam-se ’em casa’ (eles que são de Coimbra) e com a recepção que tiveram, percebemos perfeitamente, sendo que, obviamente o público não os deixa ir sem ouvir mais um par de favoritas.

É assim com “Desafio Principal” e a muito forte “Sobreviver” que se encerra o serão de festa, ficando para trás muita alegria, Punk Rock nacional de voos altos e um Popular agitado que, apesar de tudo, tal como os Fitacola anunciam no final da actuação, lá manteve a vontade de sobreviver.

Texto: Jorge Martins|| Fotografias: Maria Martins

Agradecimentos: Popular Alvalade || Amazing Artists