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La Chanson Noire [Sabotage Club, Lisboa]

É quase uma hora depois do previsto que damos as boas-vindas aos La Chanson Noire, projecto de alma de Charles Sangnoir, prontamente sentado com pompa e circunstância em frente ao seu piano para nos apresentar Evergloom, quarto álbum de originais, acompanhado apenas por Diogo Beleza na bateria e o ocasional convidado.

Definir este projecto é complicado, mas a ideia por detrás desta música reside na seguinte premissa anedotesca: Alice Cooper, Ville Valo, Robert Smith e Brendon Urie (para aquele inegável travo a Pop) entram num bar, bebem uns copos e decidem formar uma banda. Talvez liguem a Amy Lee ou a Lou Reed (paz à sua alma) para virem dar uns toques. Dave Grohl estará certamente envolvido a fazer alguma coisa, porque não existe super-grupo sem esse homem. E assim nasce o que bem podia ser os La Chanson Noire.

Assentes na cultura gótica mas com um pé no Punk e outro no Barroco dos Cabarets (sentimo-nos ora no Ritz nos bons velhos tempos ora no Moulin Rouge), os músicos aliam este imaginário tão importante quanto o som em si em licks de teclados certeiros combinados com um liricismo neo-decadente que só peca por uma ingenuidade in your face excessiva onde por vezes se pediam outras subtilezas.

E, proficiências técnicas aparte (e elas existem e são demonstradas q.b.), o espectáculo é inteiramente e como não podia deixar de ser de Sangnoir, que se pavoneia em cada movimento desde o início com a tremida “Cabaret Portugal” até ir ganhando confiança na agradável “Valsa de Escombros” e atingindo o clímax na epopeia sonora de “Food For The Worms” onde só os gritos ficam pelo caminho com desafinações ocasionais (o músico confessou que o único check feito antes do concerto foi ao vinho no jantar) e já seguro de si nos êxitos maiores como “Cornucópia” ou “Bordel de Lucifer”.

É mais pela sua presença que o líder desta actuação cativa, revelando-se um autêntico Al Pacino do movimento Gótico, com cada gesto teatralmente exagerado e citações fáceis entre músicas (“Há pessoas que não têm de escrever para fazerem poesia, basta existirem”, suspira a dado momento e o público acena vigorosamente em concordância a esta declaração tão romântica quanto oca), deixando claro espaço para o apelo à controvérsia numa francamente desinspirada “Hymn To Hashish” e salvando-se mais quando dá espaço aos seus convidados para brilharem do que quando afaga o próprio ego.

E neste capítulo é quando podemos referir uma nova vida da actuação. Se Phil Mendrix não conquista em “Família de Chantilly” devido aos problemas de som que foram marcando o concerto (uma guitarra demasiado discreta para teclados permanentemente ressoantes nos tímpanos), Patrícia Andrade leva tudo à frente com a energia animalesca que deposita na excelente “Drama Queen” e M-Pex e a sua guitarra portuguesa deliciam-nos na atipicamente patriota “Marinheiro de Aguardente” que nos faz imaginar como seria uma colaboração entre Ornatos Violeta e GNR.

Chegamos ao fim e pode-se perguntar se valeu a pena? O Sabotage a meio gás que permaneceu em transe duante hora e meia decerto dirá que sim. Mas, voltando à nossa anedota inicial, tal como a maioria dos supergrupos, o nosso ajuntamento metafórico de estrelas cumpre e até entretém, mas arrebata muito menos do que pensa.

Texto: Jorge Martins || Fotografias: Maria Martins

Agradecimentos: La Chanson Noire || Sabotage Club